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domingo, 1 de março de 2009

Estado de alerta


Vamos dizer que você tenha um terreno. Nada muito grande nem valorizado, só um pedaço de terra seca em que nada cresce, mas com um valor sentimental. Para sobreviver, ou para viajar mesmo, você deixa o local. Ele não estava registrado em seu nome e você não incumbe ninguém de tomar conta. Você faz a sua vida fora, enriquece, ganha poder e prestígio, mas sofre uma tragédia. Algo terrível que traumatiza sua família para sempre. Mal tratado em terras alheias, você decide regressar às origens, já sabendo que seu terreno não estava mais desocupado. Alguém se mudara para lá, fizera a própria vida, construíra a própria casa e laços com aquele local que antes estava abandonado. Em reconhecimento à sua dor, todos lhe dão apoio e garantem sua posse sobre as terras. Você expulsa os moradores que vivem lá há anos ou divide o espaço com eles? Se você escolheu a primeira opção, você é Israel.

A complicada situação posta acima é uma explicação superficial da causa do conflito entre judeus e muçulmanos no Oriente Médio, mas, por si só, não dá conta de toda a questão. Desde a criação de Israel, em 14 de março de 1948, quando os judeus se declararam nação, guerras aumentaram o rancor entre os dois lados e intensificaram a disputa pela terra, santa para ambos. Com o apoio do Ocidente, Israel saiu vitoriosa de todos os conflitos e pôde realizar ações militares duvidosas, como a mais recente incursão em Gaza.

Recentemente, o panorama político na região está se modificando. As eleições do parlamento israelense derrubaram de vez o partido trabalhista e deram o poder à direita. O Likud (direitista) e o Kadima (centrista), os dois mais votados, não chegam a um acordo sobre a formação do governo, apesar dos apelos do presidente Shimon Perez. A extrema-direita ganhou força e os três maiores partidos árabes também avançaram no Congresso. O discurso extremistas e anti-palestino tem se fortalecido e o apoio popular às invasões também.

A população israelense sabe que vive cercada de inimigos por todos os lados. O Hizbollah causou a última crise entre os judeus e o Líbano, “resolvida” por Israel com o método já conhecido pelo país, o militar. Os foguetes do Hamas levaram ao mesmo desconforto e à mesma reação desproporcional hebraica, o bombardeio a Faixa de Gaza, que matou mais de 1,5 mil palestinos. O Irã e a Síria, vizinhos malquistos pelo país, também são vistos como ameaça, o que não é gratuito. Os dois governos já manifestaram seu repúdio às ações de Israel, e sequer reconhecem a existência da nação. Em uma de suas declarações mais marcantes, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad afirmou que varrerá Israel do mapa. Ehud Barak, ministro da defesa israelense, por outro lado, garantiu que seu país irá às últimas consequências para impedir que o Irã tenha armas nucleares.

Antes inimigos, os partidos Hamas e Fatah, que detêm o controle da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, respectivamente, reataram os laços e se uniram para fortalecer os palestinos, que a cada dia conquistam mais aliados no cenário internacional, como a Venezuela, que expulsou o embaixador israelense com o início da invasão. Na Europa, há um consenso de que apesar de ameaçada, Israel reage de modo desigual e desnecessário. A União Européia foi um dos maiores opositores ao mais recente ataque e representantes dos maiores países do bloco visitaram a região para negociar a paz. Os EUA, maiores aliados no Ocidente, agora são governados por Obama, cujo discurso não é tão pró-Israel quanto o de seus antecessores. Atritos com a ONU e até mesmo com a Igreja Católica contribuem para prejudicar a imagem dos israelenses no panorama internacional. Israel também enfrenta problemas internos. Os judeus estão divididos entre os moderados e os exaltados. Por outro lado, a população muçulmana cresce e expande sua influência política.

Diante de tantos obstáculos, o povo judeu tem como maior desafio a paz, não uma paz imposta militarmente, mas uma negociada e que beneficie a todos. Israel deve impedir que o revanchismo e o ódio norteiem seu governo e evitar ações agressivas que matam mais civis inocentes que terroristas. Ao invés de muros, deve-se construir pontes. O Oriente Médio precisa de líderes dispostos a lidar com grupos extremistas sem perder a consciência de que o Estado não pode se igualar a eles nem abrigá-los. O Oriente Médio precisa de diplomacia responsável e comprometida com o bem-estar de toda a região, para que não se fale mais em holocausto na Terra Santa.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

2008

5... 4... 3... 2... 1...


Enquanto, em segundos, passávamos do passado para o futuro, era inevitável o choque entre lembranças e expectativas, entre feitos e planos. Recordar tudo de importante que ocorreu em 2008 é uma tarefa impossível. Todos os avanços, retrocessos, tragédias, glórias, surpresas e frustrações. Não há como dizer se o ano foi bom, mas, sem dúvidas, é possível afirmar que foi inesquecível.

Escândalos: Cartões deixaram no vermelho a credibilidade do governo. Certificamo-nos de que a corrupção não tem preferidos: sindicalistas, banqueiros, reitores, policiais, jornalistas e ministros, todos fizeram a sua parte. Dossiês detonaram uma onda de desconfiança. Informantes, grampos, espionagem, ninguém estava a salvo. Operações cinematográficas prenderam. Decisões controversas soltaram. Instituições mediram forças. Prefeitos eleitos viram cair por terra suas vitórias. A Justiça teve de abrir os olhos diante da cegueira da população. O passado de vereadores ficha suja não impediu que votações expressivas os glorificassem e estas, por sua vez, não evitaram que medidas judiciais os derrubassem. Mais 7.343? Para quê?

Na América Latina, a política ficou picante. Cai Fidel, se fortalece Chavez. As Farc se viram diante de uma campanha internacional contra sua existência. Invasão de território: Colômbia e Equador quase perderam as estribeiras. O Mercosul mostrou o muito que ainda falta progredir. Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil, Venezuela: Faltou consenso, sobraram alfinetadas. No Equador, a represa da Odebrecht rompeu relações entre os hermanos e os tupiniquins, mas o calote anunciado foi apenas um susto. Superadas (?) as turbulências, os líderes regionais se reuniram para a confraternização de fim de ano na Bahia. Sem EUA e Europa, testemunhamos o Brasil encabeçar o encontro e mostrar que tem representatividade no continente. Será?

Sem exageros, presenciamos um ano de transformações globais. Um negro toma posse da casa dos brancos nos EUA. No ninho do pássaro nasce a China potência, extravagante, controversa e grandiosa. À frente da UE, Sarkozy mostra (ou tenta) a força do bloco e sua autonomia e influência diplomática. Golpe de estado na Guiné, genocídio no Sudão, cólera no Zimbabue, pirataria na Somália. A África continua a sangrar as conseqüências da ambição alheia. Grécia e Tailândia viram a força do povo. Rússia e Israel atacaram sem piedade vizinhos menores. No Iraque, o fim da guerra já é anunciado. Em Gaza, promete-se sua continuidade. No mundo globalizado, brasileiros são barrados na Espanha. Na economia mundial, a crise assusta.

Citigroup, Lehman, GM, Toyota, Panasonic, Vale, Peugeot e até o New York Times. Em quem ainda acreditava na lógica do sistema capitalista, ele próprio deu uma rasteira. Seria o fim do sonho americano? Montadoras pedem socorro, bancos pedem concordata e milhares pedem empregos. A recessão bate a porta e entra sem cerimônia: EUA, Reino Unido, Espanha, Japão, Alemanha, Itália, Canadá. Nem o paraíso escapou: Islândia, medalha de ouro em IDH, viu as ações de seu maior banco virarem pó. Argentina mergulhou novamente no abismo. China e Rússia viram a economia desacelerar. E o Brasil, está seguro? Petrobrás reviu projetos, o dólar despencou e o crescimento caiu. A Bovespa teve a pior desvalorização em décadas. Queda também no petróleo. Às pressas, a Opep diminuiu a oferta, mas viu o barril chegar a casa dos US$30. 2009 é aguardado com previsões sombrias.

A natureza foi implacável. Nevascas na América do Norte, terremotos na Ásia, secas na Austrália. Foram 220 mil mortos em desastres naturais. No Brasil, o clima enlouqueceu. Tempestades e estiagens se revezaram no território nacional. Minas, Espírito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Poucas vezes se viu tanta chuva. Desacostumado a assistir catástrofes no próprio território, o brasileiro ficou chocado com a tragédia, mas não se calou. Toneladas de doações fizeram milagres entre os flagelados. Em Bangladesh as proporções foram gigantescas, 1,2 milhão de desabrigados. Na China, ainda maiores: 80 mil mortos em um único terremoto. O recado foi dado, mas quem pesará mais na mesa dos líderes mundiais: a crise ou o clima?

Na mídia, o noticiário virou novela. Dramas pessoais explorados à exaustão se tornaram nacionais. Isabela Nardoni, Eloá, João Roberto, Daniel Duque e tantas outras vítimas jovens emocionaram o Brasil e ocuparam espaço constante na comunicação de massa. Estaria o brasileiro cansado ou acostumado com a violência? Bebês abandonados, crianças torturadas, babás agressoras. Os casos precisaram ser cada vez mais hediondos para ganhar destaque.

Assim como todo ano, 2008 não acabou. O intervalo entre 1º de janeiro e 31 de dezembro nada mais foi do que a continuação de processos sociais e de transformações, que seguem rumo em 2009, 2010 e sucessivamente. Caem paradigmas e novos se erguem. Não em 365 dias, mas em décadas e séculos. Um ano, por mais que não caiba em post de blog, é apenas um recorte.

Após um texto como este, só cabe a mim desejar um Feliz 2009!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Um negro na Casa Branca


Para quem ainda duvidava que os americanos elegeriam um presidente negro, eis a resposta: 349 delegados para Obama, 173 para McCain. Arrematando o eleitorado dos maiores estados norte-americanos (com a exceção do Texas, é claro), o democrata foi chamado de pioneiro, despreparado, pop e até de Osama, mas não se pode negar que ele seja, na verdade, um símbolo.

Seria difícil Malcom X acreditar nessa história se ela não tivesse se tornado a vedete da mídia internacional. Experimente abrir o site de qualquer veículo situado entre Vladivostok e a Terra do Fogo e verá o rosto do afroamericano em praticamente todos. A euforia global, em grande medida, se deve ao fracasso diplomático dos oito anos de Bush, que terminou com a pior popularidade da história dos EUA. O War President foi odiado dentro e fora de sua nação, e conseguiu piorar a já mal quista imagem do“Tio Sam”.

Obama surfou numa onda anti-republicana, e se manteve como favorito desde a disputa com a ex-primeira dama e quase candidata Hillary Clinton. Passada a emoção da vitória histórica, o democrata deverá encarrar o lado negativo do trágico governo que serviu de garantia para sua conquista. Obama terá muito o que consertar.

O novo presidente terá que superar em primeiro momento, os drásticos efeitos que a desaceleração da economia trará logo nos primeiros dias de seu mandato. Junto com as boas novas da mudança democrata, virão os destroços de um mandato duplo recheado de irresponsabilidades econômicas. O mundo exigirá do novo líder um posicionamento contundente, que possa trazer de volta a confiança na nação causadora do cataclisma financeiro.

De Obama também será cobrada uma posição mais humana e correta no que diz respeito à diplomacia. Auxílio aos países pobres, repúdio a guerras, respeito ao meio ambiente, promessas implícitas no carro-chefe da campanha democrata , a mudança. Não é apenas um novo presidente que o mundo quer, mas uma nova "América". Um país que finalmente entre em conjunção com os novos tempos.

É claro que muito do que é pedido, não será feito. Não pensemos que Obama será o messias que nos guiará a um mundo mais justo e feliz. A igualdade racial é uma realidade distante nos EUA e no mundo, bem como a maioria dos sonhos dos eleitores democratas. O governo do novo presidente, como foi o de todos os anteriores, deverá respeitar os anseios das grandes corporações, os verdadeiros partidos políticos que guiam os EUA.

Como dizia uma genial colega de turma ontem, Obama vale mais pelo símbolo que pela prática. Ele pode não mudar nada, mas por si só já representa uma mudança significativa, a da ideologia. Os americanos disseram um não a um candidato que em muitos aspectos é o estereótipo de presidente dos EUA. Ex-militar, branco, bem aparentado, liberal e carismático. McCain, apesar de ser o mais democrata dos republicanos, carregava nas costas todo o peso de uma tradição que caiu em desuso nos EUA.

Ao ver os americanos elegerem a mudança, não pude deixar de lembrar dos cariocas. Enquanto lá o político diferente prevaleceu, aqui preferimos manter o arcaico populismo. Elegemos o calçador de ruas do subúrbio, o distribuidor de santinhos, o construtor de monumentos e praças. Apostamos na candidatura suja nas ruas e nas idéias. Ignoramos o troca-troca do candidato traiçoeiro que fez da sua campanha uma punhalada em seu padrinho político. O resultado, contudo, foi apertado. O balanço das eleições municipais no Rio foi positivo. A política renasceu. O novo não venceu, mas chegou perto, bem perto. Para quem duvidava que as classes mais desfavorecidas inviabilizariam uma candidatura inovadora, 2008 trouxe novos ares de esperança. Gabeira não é Obama, mas é a mudança que Rio espera de braços abertos. É uma pena que o carioca ainda não tenha se convencido disso.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O Mito e a Mídia

Ao buscar novidades sobre o caso Eloá na internet, surpreendi-me com o primeiro dos resultados. Eloá, do Hebraico, Deus. O acaso pareceu sinalizar que era hora compartilhar com os demais internautas algo que vem me inquietando e que, provavelmente, já deve ter sido tema de crônicas em algum lugar da web.

Uma das mais célebres histórias da Grécia Mitológica é a juventude interrompida da bela deusa Perséfone, também chamada de Cora ou Coré. Filha de Deméter, mãe da fertilidade e da Agricultura, e de Zeus, rei dos deuses, a jovem divindade encantou Hades, o rei do Mundo Inferior. Ao ver a impossibilidade de seu amor, o poderoso deus, em um momento de desespero, raptou Perséfone e a levou consigo ao Érebro, terra posterior ao Rio Aqueronte, onde os mortos encontravam seu destino eterno.

Muito se fez para que Perséfone fosse salva. As negociações beiraram uma guerra entre os Deuses do Olimpo e Hades. A tristeza de Deméter varreu as lavouras, matando até os últimos ramos das plantações. O impasse ultrapassou as fronteiras familiares e envolveu todos, causando um desabastecimento geral na Grécia. Quando viu iminente sua derrota, Hades deu à Perséfone uma romã. Uma única mordida na fruta amaldiçoada prendeu a Deusa ao submundo para sempre, frustrando as esperanças de sua mãe.

Vendo o caos no campo, a fome do povo, e a depressão de Deméter, os deuses mediaram um acordo entre Hades e a deusa da agricultura. A proposta consistia num movimento pendular que Perséfone faria anualmente. Passaria seis meses com seu marido, no submundo, e seis meses com sua mãe, no Olimpo. Como conseqüência do trato, vieram as estações do ano. Quando Perséfone voltava do submundo, tornava-se novamente a jovial Cora. A alegria intensa de sua mãe gerava a primavera, eufórica e florida, e o verão, fértil e caloroso. Ao partir mais uma vez, o clima entristecia, as folhas caíam e iniciava-se o outono. A distância da filha esfriava o coração de Deméter até que ela retornasse, pondo fim ao inverno. Ao lado do marido, que aprendeu a amar, chamava-se Perséfone, como ficou mais conhecida, e ocupava a sombria posição de rainha dos mortos.

Eloá é, hoje, o mito moderno da juventude interrompida. Seu drama, comoveu seu povo, não por meio da agricultura, mas através da mídia. O fim de sua história, contudo, não foi harmônico. Com a exploração das imagens, indemberg e Eloá incorporaram novos espelhos de vilão e vítima, fizeram o brasileiro do século XXI pensar o amor como o helênico anterior a era cristã o pensara. Homenagens foram e são prestadas às jovens. Ao invés de vasos de cerâmica e templos, perfis do orkut e vídeos no youtube. No lugar da deusa, a jovem bonita, alegre e fotogênica. Em substituição aos dramáticos contadores de história, os igualmente teatrais jornalistas.

Assim como a deusa, Eloá deixa o mundo dos vivos, porém em um caminho sem volta. triste história de Perséfone trouxe como resultado a nova organização climática, o replanejamento da agricultura e a harmonia divina. E o seqüestro de Santo André, que heranças deixará?

*Imagem retirada de jornale.com.br

domingo, 7 de setembro de 2008

Um por todos e todos por um


Athos, Porthos, Aramis e D’Artagnan proferiram o lema que eternizou o clássico de Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros. Na história, o jovem D’Artagnan, vindo do interior, conhece os três inseparáveis guerreiros e passa a acompanhá-los em épicas aventuras em nome da coroa francesa. Nas batalhas, um era responsável pela segurança dos outros, e intervinha em seu favor sempre que podia. Deste modo, tornavam-se invencíveis, já que a vida de um era sempre em prol dos companheiros.

Na democracia a lógica não é exatamente essa, ou pelo menos não deveria ser. A ação integrada dos três poderes se dá de modo independente, por mais contraditório que isto pareça. Vale repetir o tradicional discurso em que o Legislativo faz as leis, o Executivo às executa e o Judiciário fiscaliza seu cumprimento. O pleno trabalho dos três pilares do Estado permite que a vida democrática se sustente. A disfunção de um pode contaminar os outros e tornar ineficiente o complexo sistema idealizado por Montesquieu.

Na Democracia Brasileira, disfunção já é um eufemismo. O país que após a independência passou por um império e duas ditaduras, hoje se perde diante de um sistema que constantemente manda a Constituição para o espaço. Terra de emendas mil, o Brasil está soterrado por medidas provisórias, leis que não pegam e CPIs que não andam. A ineficiência das instituições públicas pode ser reflexo da corrupção, mas também se deve a uma incompetência quase generalizada mesmo que, às vezes, bem intencionada. Salvam-se exceções que lutam para que a máquina democrática se movimente com muito custo, seja ele representado por suor ou dólares.

A confusão, que termina em grampos e escândalos políticos, começa no desrespeito a termos fundamentais: legislar, executar e julgar. O primeiro, que deveria ser tarefa do Legislativo, tem sido largamente praticado pelo Executivo há anos, e mais recentemente também entrou na pauta do Judiciário. Seja pela lentidão das votações ou pela rixa de interesses que nem sempre são os de um Estado eficiente, os parlamentares estão no centro da crise. Para se defender, acusam o Palácio do Planalto, que governa por medidas provisórias e limita a atuação dos congressistas.

A disputa pela maioria no legislativo vai parar na sede das estatais e ministérios. Sendo assim, as poucas votações normalmente obedecem a acordos e nomeações que hora favorecem a uns e a outros, conforme for a necessidade. As CPIs, palcos de malabarismos e performances midiáticas, acabam por ser plataforma para políticos que visam a cargos no executivo municipal e estadual.
Em âmbitos menores, o Executivo também julga. Como? Guardiões da lei de todas as partes da Federação não deixam que muitos de seus suspeitos cheguem ao tribunal. Infratores e inocentes são julgados diariamente pelos juízes ilegítimos. O Judiciário, na crise de atribuições, também legisla e formula políticas.

Esta semana, a estranha denúncia da Veja marca mais um capítulo da invasão no quintal alheio. O Senador do Democratas e o Ministro do Supremo, pegos em flagrante durante uma conversa amigável e cívica, ilustram mais um desrespeito constitucional, cometido por órgãos públicos, o desdém pelos direitos individuais.

No panorama descabido, o “Quarto Poder” também tomou “liberdades”. Acusar, julgar e punir já é uma realidade multimídia, alimentada pelo vazamento infindável de informações sigilosas e denúncias anônimas movidas por interesses nebulosos. A própria conversa entre Demóstenes Torres e Gilmar Mendes, teria chegado à Veja já transcrita, de acordo com artigo de Alberto Dimes, no Observatório da Imprensa. Vale refletir se os escândalos pirotécnicos do jornalismo brasileiro estão simplesmente interessados em aumentar a tiragem, ou querem algo mais.

Uma perigosa conseqüência da prevaricação estatal é o fortalecimento do poder paralelo. Inspirados nos desvarios institucionais, os criminosos já cobram serviços postais, fornecem serviços básicos como água, luz e gás e possuem seus próprios tribunais. O problema se agrava quando o poder que era marginal se infiltra nas estruturas estatais até mesmo via eleições. Não se trata de uma exclusividade de milicianos cariocas ou de coronéis nordestinos, grandes cúpulas corporativas também exercem sua fatia de influência.

Diante do quadro quase carnavalesco em que se encontra a soberania popular, conquistada com tanto custo e hoje transformada em triste podridão, só nos resta a parte mais importante: a mobilização e consciência para nesta eleição buscar uma alternativa ao caos que se apresenta. Uma nova mentalidade é necessária para que o dia de hoje de fato tenha valor. A propósito, bom sete de setembro, se é que feriado no domingo pode ser bom...

domingo, 6 de abril de 2008

Quarto do Pânico

Crimes contra a criança são especialmente chocantes. Mexem com um ponto muito sensível na sociedade. Causam profundos sentimentos de compaixão, indignação, e forçam o imaginário a temer: “E se fosse meu filho?” Dominam as páginas da mídia, motivam manifestações e se transformam em grandes dramas nacionais. É assim que deve ser. Mas por que nem todas as crianças violentadas têm o espaço de João Hélio e Isabella Nardoni?

Solidarizo-me sinceramente pelas perdas de ambas as famílias. Revolto-me com a tamanha crueldade com que os dois casos transcorreram. Não compartilho da insensível opinião de quem não leva a sério o sofrimento da classe média. Mas ele não é o único. Por isso, prefiro não comentar a lamentável morte de Isabela para dar espaço à outra dramática história: a de L.

Talvez não se lembre, mas nesta semana a morte da menina paulista não foi a única monstruosidade veiculada pela mídia. O caso de L. R. S., de apenas 12 anos, chocou os policiais de Goiânia que a encontraram acorrentada e amordaçada em um apartamento da cidade. Silvia Cabresi Lima, empresária de 42 anos, mantinha a menina presa pelas mãos e pés, sem alcançar o chão, em um quatro trancado. A cobertura de luxo era usada como um verdadeiro campo de concentração, onde desumanidades psicóticas eram cometidas diariamente, há, pelo menos, 17 anos.

Com a chegada dos agentes da Polícia Civil, os olhos da menina ainda amordaçada se encheram de lágrimas. A policial que estarrecida se prontificou a soltar a prisioneira ficou ainda mais escandalizada ao perceber que a mordaça escondia uma gaze encharcada de pimenta. Assim que soltou a primeira mão, a menina se apressou em colocar o dedo na boca. Sussurrou: “cchhiiii, ela pode ouvir!” A agente pôde ver então as feridas nos dedinhos da menina, com unhas quebradas e pontas roxas. Ao ser questionada sobre os machucados, a garota se levantou e foi a um armário. Abriu a porta. Revelou-se então uma verdade inaceitável, absurda, segundo as palavras da policial. Ali estavam alicates e outros objetos usados nas sessões de tortura diárias, ainda manchados com o sangue da vítima.

Ao conversar com L. os policiais perceberam que sua língua também apresentava feridas. A resposta foi pavorosa. A empresária fazia cortes com alicate, e não satisfeita com a própria crueldade, puxava a garota pela casa, com a língua presa pela ferramenta. Conforme os depoimentos e perícias revelavam novas atrocidades, os investigadores ficavam ainda mais estupefatos. Os maus tratos incluíam colheres quentes na boca, surras, multilações, fome e humilhações.

Conivente, a empregada, Vanice Novaes, tentou impedir a entrada da polícia, mas teve de colaborar com a apuração. Contou aos policias que Silvia costumava fazer as sessões quando estava nervosa. A diabólica terapia trazia de volta a calma à empresária. Além das duas, também morava na casa a mãe de Silvia, de 82 anos, bem como o marido o filho, todos indiciados por conivência. Contudo, L. não era a primeira, outras vítimas já haviam passado pela masmorra, a mais velha delas com 21 anos, no momento. Como Silvia prendia tantas crianças sem ser denunciada?

Ela as comprava. Isso mesmo, comprava. Com promessas de uma vida melhor, tratamento médico e boas escolas, a degenerada empreendedora procurava famílias carentes do Estado. Desacreditados pela própria condição financeira, e muitas vezes tendo outros tantos filhos para criar, os pais aceitavam o dinheiro. É desconcertante ver até que ponto vai a barbaridade do plano.

O que será dessa menina? Após uma experiência traumática, ela não poderá contar com a mãe, que está sendo indiciada pela justiça. O pai ausente foi impedido pelos tribunais de obter a guarda da filha. Na delegacia, a agente que libertou L. contou que a garota demonstrava uma preocupação muito clara, o estado em que se encontrava a torturadora. “Ela está presa? Está sentada? Está comendo?” Uma criança de doze anos achava pequena a punição da criminosa, queria que o crime fosse pago com a mesma moeda, sofrimento e brutalidade. Não há como não ficar perplexo diante da violência psicológica que sofreu a menina.

Infelizmente, o caso não ganhou a devida veiculação. Na mesma semana, outro escândalo familiar na classe média superou a noticiabilidade de L. Ambas são crianças. Uma de cinco e uma de doze anos. O caso de Isabella tem agravantes, o principal suspeito é o pai e o seu corpo foi atirado do sexto andar de um prédio, mas o sofrimento de L. me parece mais sádico, se é que dor é algo que pode ser medido.

L. não pode ser identificada. Por medida judicial, o verdadeiro nome da criança está protegido. Seja ele Larissa, Lívia, Laura ou Lúcia, representa mais um capítulo do lívido quadro de crimes hediondos no Brasil, que desafia a lucidez. Lastimável.

Você que acompanha o blog deve ter sentido falta de figuras de linguagem e artifícios alegóricos ao ler o texto, ainda mais num tema tão sensível quanto violência na infância. Peço licença para dizer que não há o que florear, a história por si só já causa um impacto muito maior que o suficiente para chocar e instigar duras reflexões. Mais palavras seriam só palavras.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Sem Favoritismos

Como intermediário financeiro, o banco é uma das instituições mais poderosas e fundamentais para a manutenção do estilo de vida da sociedade contemporânea. Grande parte do que se produz e do que se poupa vai parar nos espaços virtuais que concentram a esmagadora maioria da riqueza mundial. Mais que administradoras, essas corporações são detentoras e multiplicadoras de capital. O que pensar, então, da aprovação de um pacote emergencial de socorro a um dos maiores bancos americanos? Crise? Elementar meu caro Bush.

Nesta semana, o presidente americano deu mais uma prova da habilidade que possui para dialogar com a mídia. Poucos dias depois de o governo dos EUA destinar bilhões para a cobertura do rombo causado pela venda do Bears Stearns por um preço bem abaixo do mercado, Bush declarou que a crise financeira vivida pelo país não é grave. Obviamente, o poder de fogo do “war president” foi nulo.

O mercado entendeu imediatamente o que significa um governo republicano intervir na economia. Conservadores e defensores do neoliberalismo até as últimas conseqüências, os antecessores do texano não cederam a uma intervenção direta nem na crise de 29. Em um quadro de competição e busca pela otimização dos lucros, a participação do Fed na compra do quinto maior banco dos Estados Unidos é um fato preocupante. Um comportamento atípico na filosofia do capitalismo yankee.

O quarto colocado na lista pode ser a próxima vítima. O Lehman Brothers enfrenta dificuldades e já mostra que possivelmente anunciará mais prejuízos. A queda de 48% das ações, em um único dia, comprova. Desde que o Citigroup contabilizou perdas bilionárias no início do ano, grupos americanos e europeus tiveram seus lucros devastados pelo terremoto que se tornou a crise do subprime. Os EUA podem até não entrar em recessão, mas já é certo que a época das vacas gordas foi para o brégio. Parece que o capitalismo não tem favoritos.

Diante de um inimigo invisível, Bush treme. A única arma que pode usar agora é a competência. Ele não entende de sutilezas. Não se conforma com a impossibilidade de bombardear a crise e pronto. Invadir o território da economia é algo complexo demais para o presidente. Invocar o nome de Deus para pedir dinheiro também não vai ajudar, ele não concede empréstimos. Os EUA gastaram trilhões na guerra contra o terror, e agora tem mais um motivo para se aterrorizar.

No Brasil, Mantega e Lula apostam na segurança da economia nacional. Há ressalvas. Em um mundo de integração e interdependência financeira, é impossível afirmar até que ponto o aprofundamento da crise lá pode, ou não, estender-se do lado de cá. Por mais que não nos atinja diretamente, muitos países embarcarão na penúria. Provavelmente o enfraquecimento das exportações será o primeiro indício. Fuga de investimentos também deve ser esperada, ninguém investe em emergentes em um quadro de insegurança global.

Perdidos na própria cartilha, os americanos devem se perguntar como logo eles foram pegos pelas armadilhas do capitalismo. Tão competentes, qualificados, organizados e ambiciosos, porém agora diante de um problema que poderia ter se resolvido tão facilmente, caso a compulsão não transcendesse os limites lógicos. Ironicamente, foram derrubados pelo consumo, força que move sua economia e cultura. As compras compuseram a rotina, a ética, a moral e até o próprio território nacional. No país onde cidadão e consumidor são sinônimos, a dívida não é só com os bancos. A crise é de valores.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Desvio de Verbo

Existem coisas que o dinheiro não compra, mas para todas as outras funcionários de todos os escalões do governo têm abusado dos cartões corporativos. Desde que a Ministra da Inclusão Racial, Matilde Ribeiro, gastou uma nota preta, denúncias cada dia mais revoltantes tomaram conta das páginas dos jornais. De pirataria a hotéis de luxo, não houve pudor. Até uma CPI foi instaurada (como se aqui isso significasse alguma coisa). A disputa pelo controle das investigações só comprova que no Brasil o que não acaba em pizza vira circo. Aliás, o cartão pode ser usado nos dois casos.

O Ministério da Inclusão Social fez seu papel em abrir os olhos da sociedade para um fato, no mínimo, curioso: quando o assunto é corrupção, nenhum país é tão igualitário quanto o nosso. Há espaço para todos os níveis de escolaridade, hierárquicos e financeiros. Do segurança ao reitor, o desejo foi um só: dar a conta para o povo pagar.

Comprou-se de tudo, sem se importar com os preços. Na verdade, talvez tenha sido o contrário, quanto mais caro melhor. Imagino o trabalho que deu ao Magnífico Reitor da UnB encontrar uma lixeira de quase R$1 mil. Pelo menos agora tem onde jogar seu diploma com certa “dignidade”, visto que um reitor é o símbolo do conhecimento em uma sociedade, um verdadeiro avatar da inteligência. Posição que requer o mínimo de compostura, como vossa magnificência reconheceu, o que não quer dizer andar em um carro de R$70 mil pago pela Universidade. Taí, eis um cargo em que ainda depositava minha confiança.

À margem da apuração dos fatos ficará uma gorda parcela, usada para assuntos de segurança nacional. Penso que todos os gastos poderiam ter essa finalidade, se fossem empregados na reforma do sistema penitenciário, na fiscalização das fronteiras, no combate ao crime organizado ou na modernização das forças armadas. Se o segredo é de interesse público, muito mais público é o interesse pela verdade.

“Longe da corrupção”, o legislativo debate temas muito mais importantes. Enquanto a situação tenta tomar as rédeas da CPI, para implantar uma comissão do “bem”, a oposição faz discursos histéricos e chantagens demagogas para investir em uma nova cruzada contra a invicta popularidade de Lula. Ou teremos governistas se auto-flagelando com chicotes de algodão, ou opositores plantando bananeiras para a mídia. Vale lembrar que essa é uma das muitas formas que serão usadas para ganhar os holofotes em ano eleitoral. Como disse acima, existem coisas que o dinheiro não compra. Voto não é uma delas.

À medida que percebemos o quanto o Portal de Transparência é opaco, questiono o que ainda falta ser descoberto sobre a corrupção. Esse fenômeno patológico em nossa sociedade mostra-se cada vez mais uma epidemia. Já sabemos que é parte da cultura, que atinge todas as camadas sociais e que não faz distinção de gênero, etnia nem formação acadêmica. Está em todos os estados, desenvolve formas cada vez mais eficientes e algo me diz que se revela apenas quando é conveniente. Onipotente, onipresente e onisciente. Corrupção no Brasil é mais que hábito enraizado, é religião.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

'Fashion Week'

Celebridades, fatos não esperados, reviravoltas, polêmicas e estilo. Essa não foi a fashion week, mas bem que poderia ter sido. Parece que não foi só o relógio que acordou diferente no domingo, nos últimos sete dias vivenciamos momentos históricos – outros nem tanto – que podem representar indicações de quais serão as tendências das próximas estações. Vale a pena fazer um apanhado geral.

No Brasil, o verde está “out”. Pelo menos foi nisso que apostou a população de Tailândia, cidade paraense que impediu o início da apreensão de madeira ilegal da Amazônia, armazenada no município. Após demissões em massa, orquestradas pelas madeireiras para obrigar o povo a lutar por seus empregos, centenas de pessoas chegaram a incendiar um carro para barrar o comboio do Ibama. Já os ministros Tarso Genro e Marina Silva ficaram “beges” de espanto, e preferiram não comparecer.

Na terra de Gisele Bündchen, quem brilhou foi outro top, Lula, que finalmente pôde lançar mão do jargão “Nunca na história desse país” de forma adequada. O “vermelho” ficou para traz, e agora no “Azul”, somos credores. Só falta saber se será azul celeste, ou algum meio “água suja”.

Outro tom em alta é o azul petróleo, que atingiu os US$100 o barril, para a alegria de Hugo Chavez. Após batalha judicial contra a Exxon, o presidente venezuelano declarou que não pretende amarelar, e ameaçou os americanos, já que para eles muito mais negra que a fome, é a ausência de petróleo. Os latinos não pararam por aí. Na terra em que Hittler ascendeu ao poder, Capitão Nascimento virou herói e trouxe para casa o urso de ouro. A farda preta agora é ícone do cinema brasileiro, e ai dos “intelectualóides” que queiram questionar isso.

Os últimos dias mostraram que a camisa verde e amarela está para perder um dos mais ilustres usuários, Ronaldo. Apesar do esforço, o jogador deu sérios indícios de que jogará a toalha em breve. Quem não fará isso é Hillary, que ao ver seu fracasso cada dia mais iminente, se apega com mais força a bandeira rosa-choque. Já o afro-americano Obama escolheu um estilo alternativo – sem cordões de prata e super carros – e tem obtido resultados bem positivos. E ainda assim há quem se pergunte se os Estados Unidos estão prontos para um presidente negro.

Conservadores como sempre, os americanos mostraram que há algo em sua política que não sai de moda, o moralismo. Após ser pego com uma lobista, John McCain está de saia justa. Parece que a ala retrô do Partido Republicano vai ter que engolir mais este sapo se não quiser entregar os pontos.

Voltando ao Brasil, a antológica frase “há males que vêm para o bem” se fez valer novamente. Após a má-fé dos seguidores do Bispo Macedo mover céus e terras contra a mídia, algo de bom veio como resultado, um Ministro do Supremo anulou temporariamente a lei de imprensa. Em pleno século XXI a lei ainda permitia ações como recolhimento de jornais em caso de as edições ferirem a moral e os bons costumes. Coisas um tanto quanto anos 60.

Uma antiga conhecida do povo brasileiro tem ganhado uma cara nova, é a “repaginada” política do pão e circo, que parece se tornar cada dia mais “do circo, e tá bom”. O Timemania vai direcionar 22% dos recursos arrecadados com as apostas para clubes de futebol. Já a seguridade social ficará com apenas 1%. Em ano de eleição, deputados reforçam o novo look da velha política e garantem o maior aumento de verba por meio de emendas para os Ministérios do Turismo e dos Esportes, que têm apelo muito mais circense.

Uma moda que, pelo bem da humanidade, poderia pegar foi lançada pelo Kosovo. Após décadas de subordinação, Sarajevo afirmou sua autonomia com uma caneta e muita alegria. É uma pena que Belgrado e Moscou não tenham ficado muito satisfeitas. Em um ataque de pelancas, Putin chegou a ameaçar barrar a independência a força. Em protestos, a população sérvia atacou a embaixada americana e obrigou Bush a recuar com os diplomatas. Só falta saber o que a nova nação pretende fazer com as minorias étnicas.

Para o fim, o que houve de mais (in)esperado: a mudança de liderança na grife ideológica de Cuba. O antigo guru, Fidel Castro, passou o bastão sem que ninguém esperasse. Como um dos últimos mitos vivos do socialismo, Fidel é imprescindível para o equilíbrio na ilha do modo como ele se dá hoje. Após 49 anos no poder, o líder ficou um pouco fora de moda – apesar da jaqueta da Adidas – mas continua adorado pelos companheiros comunas. O país obteve muitas conquistas, ainda que com métodos controvertidos, porém afundou em uma crise. Agora é saber para que lado do Caribe Cuba boiará. Se entregará à tutela de Hugo Chavez, ou às incertezas de uma transição que irá muito além da política? Todo cuidado é pouco, já que não faltarão grandes marcas de olho na alta escolaridade e no baixo custo da mão-de-obra cubana.

Em uma indústria multi-bilionária como a da moda, mudanças se dão em um único dia, até com um simples acessório. Também é assim no mundo real. Em menos de 24 horas surgem novos paradigmas. Se espera que transformações durem anos, já deve estar um pouco antiquado. Portanto, não se surpreenda se tiver que renovar o seu armário de idéias em breve. Vestir camisas está em alta, mas o valor de suas cores vai muito além da estética. Responsabilidade social, meio ambiente, feminismo, ou seus antagônicos. Há quem as use por serem bonitinhas, e quem as repudie simplesmente pelo mesmo motivo. Ao escolher sua roupagem ideológica, reflita antes de cair no senso comum.

Cheios de pós-modernidades e síndromes de velocidade, vivemos hoje a Idade da Moda. Encare-a como quiser. Com um preto básico, que vai bem em qualquer situação, com um estilo próprio e independente de tendências, ou aderindo ao “in fashion”. Só não a ignore, pois em um mundo de aparências, você é o que veste. Isso é tudo.