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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Vivo, logo existo

Artigo III.

Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Para grande parte da população carioca, este artigo é um absurdo. Cheguei a esta óbvia conclusão ao reparar a reação das pessoas diante da possibilidade de um dos condenados pela morte do menino João Hélio ser protegido pela justiça por ter recebido ameaças de morte.

"O que indigna a população é o fato de um criminoso ser protegido pelo Estado", disse uma certa âncora de TV.

Ezequiel, hoje, com 21 anos precisa da proteção por ter sofrido ameaças de morte. Constitucionalmente, o Estado tem o dever de zelar pela vida de todos. Por mais discutíveis que sejam as penas judiciais que ele sofreu, a questão agora não é seu acerto de contas com a sociedade. Ele já foi condenado, cumpriu o que cabe a um menor de idade e certamente foi até alvo de tratamento indigno neste período, a julgar pela cena de sua prisão, quando um policial o engravatava enquanto ele era levado algemado diante das câmeras, mesmo sem a menor perspectiva de reação. E aliás:

Artigo V.
Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

Não é possível afirmar que o centro de reeducação de menores o tenha torturado, mas as condições sub-humanas recorrentemente denunciadas pela imprensa são o suficiente para quebrar o quinto artigo. E você, que está pensando em formas de fazer este rapaz pagar pelo que fez, grave bem essa parte: "ninguem será submetido à tortura ou catigo cruel".

A questão a ser tratada agora é a segurança deste ser humano, vítima das ameaças do clamor público e de outras talvez mais obscuras. Apesar de vivermos uma insanidade coletiva nestes tempos de violência, caberá sempre aos revoltados sãos a manutenção dos valores e o impedimento de concessões perigosas. O direito à vida não pode ser posto de lado para o bem da própria Democracia, pois, se o Estado um dia puder tira-la de nós de forma constitucional e legítima, é sinal que já pertence a ele de certa modo. Que se multiplique apenas a justiça e não o sofrimento.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Deveres Humanos

Há 62 anos, estabeleceu-se que o fato de existirmos, de respirarmos e de sermos pertencentes à mesma espécie seria suficiente para tornar universais as garantias de dignidade, liberdade e respeito. Independem de nossos atos, de nossa nacionalidade, de nossa etnia e de nossa condição social esses direitos. Qualquer ser humano, nascido em qualquer ponto da Terra, tem o resguardo e o dever de resguardar o próximo, conforme proclama a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nela, TODOS, e nada menos que TODOS, estão inalienavelmente incluídos.

Apesar do enorme passo para a civilidade que representa, a DUDH é, com a mais absoluta certeza, desrespeitada em seus 30 artigos cotidianamente. Sua importância é hostilizada com regularidade, e suas determinações são relativizadas com argumentos antropológicos, que ironicamente muitas vezes acobertam o desumano (sim, estou sendo etnocêntrico). Como radical defensor desta idealista sexagenária, me prestarei, a partir de hoje, a apontar como cada um de seus artigos é vergonhosamente ignorado por este mundo hipocritamente pautado pela liberdade.

Artigo I.Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.

O IDH de Serra Leoa não chega à metade do norueguês. Enquanto a Sasha escreve “sena” porque foi alfabetizada em inglês, milhares de alunos do ensino médio cometem o mesmo erro por não terem sido alfabetizados em português mesmo. Apesar de sermos todos humanos, odiamos criminosos, mendigos, arruaceiros, terroristas, americanos, russos, judeus, árabes, homossexuais, reacionários, comunistas, flamenguistas e qualquer um que ofereça “motivos”. Como somos fraternos se vivemos num mundo focado na competição e no individualismo, se somos mais valorizados por nossa capacidade de derrotar que pela de cooperar? Como somos iguais e livres se cada direito, conforto, conquista e realização só podem ser obtidos de acordo com a capacidade financeira no mundo material? Consumimos ou somos consumidos?

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Atena X Einstein

Vagando erroneamente pela internet neste domingo de manhã, me deparei com um site provocativo. “Teste de QI do Einstein”, anunciava. Pois bem, como eu já ouvira falar e mais uma vez li, o exame é impossível para 98% da população mundial. (!!) Isso mesmo, 98%. Enquanto tentava descobrir de que nacionalidade era o homem que morava em cada uma das cinco casas, quais eram suas bebidas e animais de estimação, me bateu uma dúvida: O J.J. Abrams passaria neste teste?

Para quem não sabe, J.J. é roteirista de Lost, simplesmente o roteiro mais trabalhado que já assisti. Logo, pode-se concluir: ele é um gênio. Mas, Einstein, que também é inegavelmente um gênio, restringiu seu grupo de olimpianos a apenas 2% da população mundial. E esta ínfima parcela de 140 milhões de pessoas – uma Rússia inteira de crânios – seria definida por quem acerta a casa, a nacionalidade, o animal, a bebida e o cigarro dos cinco homens citados no teste (se é que o teste que eu achei é o real).

Citando uma pessoa menos questionável: e se Dostoiévski não acertar? E se Van Gogh, Camões, Graham Bell, Gandhi e Platão errassem uma das casas? E se Mozart não adivinhasse que animal pertencia ao norueguês e Darwin se enganasse quanto à marca do cigarro?

Já há teorias que diferenciam as genialidades de Machado de Assis e Isaac Newton. Isso não é novidade. Mas, afinal, o que é ser inteligente?

Bom, um amigo meu só tirava notas boas na escola. Tinha boas idéias para os trabalhos e facilidade de aprendizado. Seus amigos, ao descrevê-lo, sempre recorriam ao adjetivo inteligente, e nada mais que isso. Este meu amigo passou no vestibular em uma bela colocação e manteve o desempenho da escola no ensino superior, quando passou a ser descrito por suas notas. Um dia, questionou: o que há de genial em gastar a vida no cultivo de números? O que há de genial em saber nomes, gravar datas, articular palavras e tratar de assuntos que em nada tocam nem modificam a realidade em que se vive? Que números e nomes são estes que definem quem eu sou? Felizmente, este meu amigo descobriu que seu conceito de inteligência era uma futilidade tão desnecessária quanto a dos que medem os centímetros de seus bíceps em frente ao espelho e tão burra quanto a de quem tem em seu contracheque o seu maior orgulho.

Inteligência, para este meu amigo e para mim, não é raciocínio lógico. Não se mede pelo volume de conhecimento acumulado, nem pela criatividade de ver além do óbvio. Penso que a inteligência é uma sensibilidade, uma percepção, uma capacidade de interpretar o mundo de forma crítica, de se descolar da vaidade e dos desejos. Inteligência para mim é sabedoria, e não QI, cultura ou portfólio.

Tenho uma visão bem grega do que é a sabedoria. Atena, deusa desta qualidade, muitas vezes é descrita como a divindade da justiça, e isso não é um equívoco. Para os gregos, as duas virtudes são sinônimas. Ainda que se possa questionar a justiça helênica, o conceito se adéqua às minhas necessidades. Mais inteligente, para mim, é o que busca ser justo e sábio, é o que tem a sensibilidade de não se levar pelos sentimentos menores e o que usa o cérebro com fins coletivamente úteis, sem se apegar a vaidades e ilusões de superioridade. Se inteligente for o que se presta a futilidades intelectuais, burras serão a ciência e o conhecimento, pois serão reduzidos ao mesmo patamar que grifes e acessórios, terão o mesmo valor que músculos e servirão menos que conversíveis vermelhos. Sinceramente, espero que estes gênios sejam muito mais que 2%.

PS: Como você deve supor, faço parte dos 98%.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Inovar é mesmice

Desde o desfile pop com o carro do DNA, venho acompanhando o trabalho do Paulo Barros. Como amante do carnaval da Sapucaí, confesso que recebi toda aquela ausência de plumas e esculturas com muita desconfiança. Depois vieram a bateria no carro, a alegoria de ponta cabeça, as originais aparições de E.T. e Wolly, os caixões coreografados no carro do Drácula e outras inúmeras idéias sem precedentes. Quando a Tijuca entrou na avenida neste ano, sentei com grande expectativa em frente à TV para conferir qual seria a nova peripécia do Oswald Andrade do samba, e não me decepcionei. O título mais do que merecido me fez pensar em como a inovação se tornou uma exigência cotidiana, seja ela mercadológica ou não.

Sejamos nós os publicitários das Havaianas ou os vendedores de bala em ônibus, estamos submetidos a esta exigência da vida moderna. Como diz meu colega de república, faculdade e estágio, até pedir esmola tornou-se uma atividade pouco rentável sem piruetas, jingles, trabalhos artísticos ou encenações dramáticas pouco convencionais. Nos cursinhos, professores têm que inventar “musiquinhas” para a tradicional decoreba, poemas matemáticos, aulas mais cinematográficas e até piadas de humor negro e didático. O que dizer então do mundo pop? Com uma ascensão meteórica, Lady Gaga já está tão à frente de nossa época que parece saída do fim dos tempos. Guardadas as proporções, até o Big Brother tem que reinventar detalhes a cada edição para não ter quedas ainda piores de audiência. No Twitter, a guerra é para fazer a piada original em tempo real e, na religião, uma denominação inovadora surge a cada esquina com novos rumos para o cristianismo.




E nós? Bom, nós somos massacrados pelo choque com idéias novas a cada momento. E vale lembrar que nem tudo o que inova melhora. Aceleramos de tal forma a locomotiva do novo que mal aproveitamos o potencial da sugestão de semana passada, que já parece repetitiva sete dias depois. Os referenciais mudam tão depressa, que já não há mais tempo ao menos para identificá-los. Não me darei ao trabalho de esmiuçar a Modernidade Líquida de Bauman, mas saibam que o tema já é objeto de estudo de acadêmicos desde o século passado, que já parece distante o suficiente para ser chamado assim sem estranhamento.


Há um limite para a criatividade? É o que sempre questiono diante de tantas criações. Haverá um ponto em que não teremos mais nada de novo a inventar? Não sei. Um dia, quem sabe, alguém será chamado de gênio quando disser o quanto é inovador não inovar. Então, nos voltaremos ao démodé e perceberemos quanta coisa boa e útil ficou para trás. Bom, esta é a minha idéia. Se quiser inovar, procure a sua.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Omeletes e Maquiavel



Uma decisão do nosso ministro da Justiça tem gerado uma situação, no mínimo, embaraçosa entre Brasil e Itália. Para quem não tem acompanhado a mídia, uma situada: Tarso Genro se negou a deportar o italiano Cesare Battisti, que foi condenado por terrorismo. O ex-militante foi acusado de participar de movimentos radicais de esquerda, que fizeram vítimas no país na década de 70. Preso pela PF em março de 2007, Battisti continua em uma prisão de Brasília.

O caso possui uma diversidade de poréns que devem ser analisados antes que se diga que o Brasil está abrigando um terrorista, e, também, muito antes que se afirme que estamos socorrendo um herói revolucionário. Seria a decisão de Genro, um corporativismo ideológico? Mais uma vez o governo Lula faz uma questionável manobra diplomática com motivos que beiram a simpatia política. Vale lembrar o amparo dado aos governos esquerdistas da América Latina, que vivem espezinhando o Itamaraty. Há erros e acertos na política externa brasileira, e, principalmente, leviandade em muitas afirmações feitas na mídia. Voltando: Seria uma questão de direitos humanos por Battisti não ter participado de seu próprio julgamento? Seria simplesmente um desafio a um pais desenvolvido como a Itália, o que “““““reforçaria””””” nossa ascensão como força política mundial? Não entrarei no mérito de nenhuma das questões.

Chamou-me a atenção ouvir um argumento da defesa do italiano. Alegou-se que Battisti cometeu crime por motivos políticos, e que por isso, não deveria ser preso. Separando a discussão do caso particular da esquerda ex-radical italiana, e tratando do assunto mais genericamente: vale cometer crimes em nome de supostas transformações políticas e sociais? Em busca do fim de regimes opressores e injustos? Em defesa dos direitos humanos, da liberdade e da democracia? Até onde a bandeira de uma ideologia pode nos levar, e até onde uma motivação positiva deve gerar concessões?

Ao longo da história, processos sangrentos foram o principal motor de propulsão das transformações. Revoluções Francesa, Russa, Chinesa, Cubana; Independência dos EUA, Haiti, México. Sem falar de guerras que alteraram o panorama global e tantas outras disputas que banharam de sangue os manifestos e panfletos políticos.

Nem entro no mérito de atos de vandalismo, falo apenas de ações que vitimizam pessoas. Em nome de um país mais justo, valem chacinas na classe dominante, fuzilamento de congressos, ataques terroristas contra civis, e tantas outras atrocidades que desrespeitam os direitos humanos?

Há quem diga que não se faz uma omelete sem quebrar os ovos, ou que os fins justificam os meios, ou que sacrifícios são necessários. Penso também no Hamas, que contra a repressão israelense tem cometido barbaridades. É legítima a reação violenta do oprimido contra o opressor? Não chego a conclusões definitivas.

Penso que a vida é o maior de todos os bens a ser preservado. Penso que a violência em nome de causas nobres ainda é violência. Penso que não se podem abrir concessões em princípios conforme pedem as circunstâncias. Caso contrário, seria a favor dos homens-bombas, dos mísseis contra Israel, da caça aos nobres na Noite do Terror, do tratamento desumano a criminosos em morros cariocas, dos atentados de 11 de setembro e de tantos outros episódios engajados e sombrios de nossa história.

Apesar disso, reconheço que sem luta não se teriam derrubado as ditaduras na América Latina, não se extinguiria o Feudalismo, não se acabaria a colonização européia ao redor do mundo nem se poderia conquistar a democracia em incontáveis países. Mas a luta não necessariamente precisa ser um banho de sangue e terror em grande parte do planeta. Com um “sistema democrático” consolidado, muitas nações já podem reformar suas estruturas e fazer belas omeletes sem quebrar ovos. Para os mais afoitos e radicais, creio que tal afirmação não sirva de consolo. Entre dar início a mudanças radicais, por meio de processos violentos, que não têm previsão de onde parar, e poupar vidas, fico com a segunda opção.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O Mito e a Mídia

Ao buscar novidades sobre o caso Eloá na internet, surpreendi-me com o primeiro dos resultados. Eloá, do Hebraico, Deus. O acaso pareceu sinalizar que era hora compartilhar com os demais internautas algo que vem me inquietando e que, provavelmente, já deve ter sido tema de crônicas em algum lugar da web.

Uma das mais célebres histórias da Grécia Mitológica é a juventude interrompida da bela deusa Perséfone, também chamada de Cora ou Coré. Filha de Deméter, mãe da fertilidade e da Agricultura, e de Zeus, rei dos deuses, a jovem divindade encantou Hades, o rei do Mundo Inferior. Ao ver a impossibilidade de seu amor, o poderoso deus, em um momento de desespero, raptou Perséfone e a levou consigo ao Érebro, terra posterior ao Rio Aqueronte, onde os mortos encontravam seu destino eterno.

Muito se fez para que Perséfone fosse salva. As negociações beiraram uma guerra entre os Deuses do Olimpo e Hades. A tristeza de Deméter varreu as lavouras, matando até os últimos ramos das plantações. O impasse ultrapassou as fronteiras familiares e envolveu todos, causando um desabastecimento geral na Grécia. Quando viu iminente sua derrota, Hades deu à Perséfone uma romã. Uma única mordida na fruta amaldiçoada prendeu a Deusa ao submundo para sempre, frustrando as esperanças de sua mãe.

Vendo o caos no campo, a fome do povo, e a depressão de Deméter, os deuses mediaram um acordo entre Hades e a deusa da agricultura. A proposta consistia num movimento pendular que Perséfone faria anualmente. Passaria seis meses com seu marido, no submundo, e seis meses com sua mãe, no Olimpo. Como conseqüência do trato, vieram as estações do ano. Quando Perséfone voltava do submundo, tornava-se novamente a jovial Cora. A alegria intensa de sua mãe gerava a primavera, eufórica e florida, e o verão, fértil e caloroso. Ao partir mais uma vez, o clima entristecia, as folhas caíam e iniciava-se o outono. A distância da filha esfriava o coração de Deméter até que ela retornasse, pondo fim ao inverno. Ao lado do marido, que aprendeu a amar, chamava-se Perséfone, como ficou mais conhecida, e ocupava a sombria posição de rainha dos mortos.

Eloá é, hoje, o mito moderno da juventude interrompida. Seu drama, comoveu seu povo, não por meio da agricultura, mas através da mídia. O fim de sua história, contudo, não foi harmônico. Com a exploração das imagens, indemberg e Eloá incorporaram novos espelhos de vilão e vítima, fizeram o brasileiro do século XXI pensar o amor como o helênico anterior a era cristã o pensara. Homenagens foram e são prestadas às jovens. Ao invés de vasos de cerâmica e templos, perfis do orkut e vídeos no youtube. No lugar da deusa, a jovem bonita, alegre e fotogênica. Em substituição aos dramáticos contadores de história, os igualmente teatrais jornalistas.

Assim como a deusa, Eloá deixa o mundo dos vivos, porém em um caminho sem volta. triste história de Perséfone trouxe como resultado a nova organização climática, o replanejamento da agricultura e a harmonia divina. E o seqüestro de Santo André, que heranças deixará?

*Imagem retirada de jornale.com.br

terça-feira, 15 de abril de 2008

'A Jornada é o Destino'*

Morrer para contar a história. Talvez não seja exatamente isso que os fotojornalistas de guerra tenham em mente. De que adianta dar a vida para levar imagens do terror a primeiras páginas e exposições mundo afora. Não se fotografa pelo cadáver, pelo ferido ou pelo faminto. Não se invade o íntimo do ser humano apenas para retratar seu sofrimento e sua decrepitude. A fotografia é pelo vivo, pelo ileso e pelo saudável. Morre-se para que a história não se repita.

Invade-se o íntimo daquele que observa. Incapaz de ignorar a intensidade da imagem, o homem a incorpora. Traz para si inevitáveis questionamentos. Algo já não é mais o mesmo. O choque de uma única foto pode permanecer por toda uma vida, traumatizar o ser humano que habita cada um de nós. A imagem congelada gela a espinha e divide a angústia. Investidos desse poder, os fotógrafos incentivam ações e ofuscam argumentações falaciosas, até mesmo os carrascos se constrangem.

Com apenas 22 anos, Dan Eldon tinha um objetivo tão nobre quanto pretensioso. Talvez tenha escolhido o pior laboratório para se formar profissionalmente. Não havia lucidez nem lógica, diante da Somália imersa em guerra e fome só era possível sentir compaixão ou ódio. Não cabia viver, apenas sobreviver ou morrer. Mas, talvez tenha escolhido o melhor.

Incumbido de uma humanidade sobre-humana, o jovem encantou quem o conheceu. Com alegria, respeito e sensibilidade, atravessou um cenário trágico em busca de fotos. Por mais que visse a morte nos vivos e lamentasse a vida dos mortos, mantinha a determinação. Tinha ciência de sua importância. Não era um carniceiro, por mais que chegasse bem perto com os closes, resguardava a dor e a intimidade dos modelos com cuidado.

Entregue aos senhores da guerra, aos vizinhos hostis e aos fanatismos, a população carecia de uma nação. A arbitrária fronteira traçada pelas potências caía por terra diante da miséria e da brutalidade. O mínimo de dignidade era desconhecido. Em suas curtas e árduas vidas, muitos nasceram e morreram sem ver um sistema pelo menos estável, em que as atrocidades não governassem a irracionalidade dos líderes. Poucos experimentavam a solidariedade, senão entre eles mesmos e os outros infortunados que transitavam pela Somália. Em sua curta estadia, Eldon se empenhou em não se ater somente às imagens, mas também ao objeto das fotos.

Preferia as crianças. Sensacionalismo? Não, reconhecia nelas um maior poder de persuasão. Traduzia o drama de um país em um olhar desesperançoso. Telepáticos, os olhos dominam as mentes de quem se aventura a encará-los. A serenidade mostra-se mais incisiva que o escândalo. A imagem, de fato, vale mais que mil palavras.

Contada por sua irmã, Amy Eldon, a história de Dan se tornou exemplo para o ativismo internacional. Morrendo para Contar a História é um documentário dramático e motivante, que deixa lições e seqüelas. Questiona-se a validade da guerra e ao mesmo tempo o poder do homem de combatê-la. Não há como ser indiferente.


Ao olhar tão de perto, os jornalistas não conseguem sair ilesos. “Sentem o cheiro da morte”. Impregnam-se dele. Sujam as mãos e limpam a alma, ou o contrário. Ao alimentar o circo da mídia, arriscam ver as fotos reduzidas a ilustrações, minimizadas por frases de impacto que escondem o que lhes é evidente. Muitos perdem a vida sem ganhar a causa. Expõem-se para promover a empresa, a paz ou a si mesmos. Heróis altruístas, loucos suicidas, ou monstros oportunistas? Nada disso, apenas jornalistas.


* Frase de Dan Eldon

(texto escrito como resenha para a disciplina de fotojornalismo na UFF)

segunda-feira, 24 de março de 2008

Alcatéia

Livros enfileirados acumulam poeira e decepção nas estantes. As páginas guardam palavras cujo efeito foi corroído pelas décadas, pelos dólares e pelas dúvidas. Barbas, mobilizações, hinos, bandeiras, todos ficaram nas fotos, e elas já não mais ocupam a mesa de centro. As gavetas conservam o que as mentes abdicaram. Os ídolos estão decrépitos, perderam-se no fracasso dos líderes. A juventude está velha. Será que idéias morrem?

Marcas de um futuro que poderia ter sido ainda preenchem discursos, mas esvaem-se na prática. Tudo o que era sólido se desmanchou no ar, restaram apenas vestígios. A evanescente ideologia de toda uma geração construiu uma retórica hoje vazia, que oscila entre o desequilíbrio, o populismo e o ridículo. O que houve com a esquerda? Os sonhos de uma sociedade mais justa e esclarecida foram comprados pelo vil metal. Mas nem todos partilhamos da ceia do lucro, fomos alienados pela mais-valia do voto. Desiludidos, mantemos os mesmos hábitos, as mesmas críticas a cada detalhe, a cada mensagem subliminar e explícita. Apocalípticos, amargamos na barbárie a vingança contra o capitalismo. O que se perdeu foi mais que a razão, foi a crença política, a credibilidade de nossos próprios ideais. Acreditar virou constrangimento.

A culpa não é do Lula. O socialismo deixou de ser um fenômeno e passou a ser um atraso em todo lugar. Não há espaço para a igualdade no mundo da eficiência, salve-se quem puder. No Brasil não poderia ser diferente, consumimos o que há de “melhor” na cultura ocidental. Os quase nova-iorquinos empresários de São Paulo não podem tolerar marxistas em sua política. A competitividade requer um governo capitalizado, com objetivos claros e metas pré-estabelecidas, reduzidas ao PIB. O Brasil tem que ser global.

Idéias tão pouco rentáveis quanto a coletividade não podem prosperar. A verdade é que faltou competência, organização, tecnologia e dinamismo na luta comunista. A revolução perdeu por não ser um bom negócio, por não ter uma equipe com know-how e MBAs suficientes. Eles venceram, não há mais lado de fora no capitalismo. Toda luta da Comuna de Paris, os sacrifício contra o facismo, as Revoluções Russa, Chinesa e Cubana, o movimento estudantil de 68. Já se foram 40 anos e ainda estamos aqui. Há saída?

Temos que aceitar que não é a que gostaríamos, mas o sistema pode ser mais justo e humano. Não adianta falar de quebra-quebra, inversão de pirâmide e fim do Estado. Não cabe mais defender o impalpável na construção de uma sociedade melhor. Contentar-se com o reformismo não é fácil, mas é preciso. Já que é impossível destruir os alicerces, dividamos melhor os cômodos. Adaptar-se não é se entregar nem trair, é não abandonar o objetivo primordial, abrindo mão dos pormenores. Insistir em uma mesma estratégia em um quadro mutável e instável é apegar-se, com toda a força, à derrota.

É claro que a adaptação necessária não passa, nem de longe, pela total corrupção da ideologia de esquerda, que culminou nas alianças infelizes do governo do PT. O Partido dos Trabalhadores defende os Senhores da Cana e os Bancos, e, por mais que investigue, despeja falcatruas na mídia em velocidade pós-moderna. Banalizou-se o escândalo. O assistencialismo é vital como forma de socorro, mas hoje, e sempre, é usado como cabresto na indústria da gratidão e da miséria. Não é mais uma questão de usar as armas da direita contra ela, o PT se tornou a direita, deitou-se com o PMDB, e deixou sem ação o PSDB e o PFL, e sem saber o que combatem ao certo – sim, insisto em chamar de PFL, e chamaria até de ARENA ou UDN se não prejudicasse o entendimento –. Não é dessa mudança de hábito que falo.

Se não podemos suprimir a competição, que pelo menos tenhamos igualdade de oportunidades. Escolas públicas de qualidade, atendimento médico digno para quem não pode pagar e infra-estrutura para todos. Não o mínimo, esqueça-o, pense no humano. Ainda que isso não garanta uma vida justa, seria dar uma chance para que se conquiste com o capitalismo o que foi inviável de outras formas. Limitar-se ao egoísmo e consumir os dias resmungando um passado de promessas não levará a lugar algum. Se o homem é o lobo do homem, formemos uma alcatéia.

“Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Ainda que eu não tenha feito nada.

sábado, 8 de março de 2008

Xixi na cama

Nem sei porque os homens vão para a guerra. A natureza mostra que as verdadeiras guerreiras do mundo animal são as fêmeas, e a história comprova. “Cada vez mais unânime”, o feminismo se consolidou como uma das principais bandeiras da sociedade moderna. Resultado da luta de milhões de mulheres pelo direito de votar e ser votada, de empregar e ser empregada, e de ser e fazer quem quiser feliz. No entanto, hoje, algumas exigem um direito absolutamente controvertido, o de matar. Matar seus próprios filhos.

A lei brasileira classifica de homicídio doloso a investida intencional que resulta na inatividade encefálica de um indivíduo. Quer dizer, “matar por querer”. O delito ainda pode ser agravado por incapacidade de defesa, motivos repugnantes, ou por corresponder a resposta contra um ato desproporcionalmente pequeno, entre outros motivos. Armar uma emboscada para a vítima é outra forma de alongar a crueldade. Premeditar dá um caráter mais maquiavélico à trama.

Pois bem, imagine um bebê, que ocupa seu tempo “flutuando” no confortável e aconchegante ventre de sua mãe. Não importa se ele tem coração, pulmão, unhas ou apenas uma célula, já que terá tudo o que falta em uma questão de tempo.

Agora pense em um remédio, chá, pílula do dia seguinte, agulha de crochê, magia negra, ou o que seja. Quando a futura genitora decide que não mais dará a luz a sua “cria”, seja qual for a razão, ela não muda o fato de que o peso que será tirado da barriga será infinitamente multiplicado e lançado como um meteoro na consciência, pelo menos teoricamente. Ele estará completamente indefeso, visto que a pessoa que foi encarregada de protegê-lo decidiu dar cabo da tarefa. Qual seria o motivo da punição? E o que fez para merecê-la? Nasceu? Não, nem isso. Nenhum aborto induzido é feito sem querer, alguém teve a intenção de matar, nem que seja outra pessoa. Já que não é acidental nem ocasional, houve o mínimo de planejamento, pelo menos o necessário para chegar ao local do crime, e por em prática a cilada.

Percebeu? “Caracteriza-se então um homicídio quintuplamente qualificado”, pelo menos pelas leis morais. Uma verdadeira lenda no hall dos crimes hediondos. Um recorde que é fruto de trabalho de equipe e muito empenho. Com este invejável posto, uma mãe que o comete deixaria para trás Suzanne Von Richthofen, Beira-Mar, Champinha, Abadia, Al Capone, Maníaco do Parque e tantos outros “amadores” que ficariam degraus abaixo na qualificação criminosa. Nenhuma emboscada jamais será tão eficiente quanto o aborto.

Ainda assim, há quem argumente a favor. O aborto seria uma forma de evitar problemas financeiros maiores para a família? Seria, vender seus filhos também. Há quem diga que seria uma forma de conter a criminalidade. Genocídios idem, menos pessoas resultam em menos criminosos em potencial, nessa lógica. Talvez uma forma de preservar a adolescência das jovens que engravidam. Então por que diminuir a maioridade penal? Só é preso quem pode responder pelos próprios atos, não é verdade? Para os que dizem: “Ah... Em caso de estupro eu sou a favor...” Em caso de estupro já é legalizado.


De fato o aborto é uma solução rápida para muitos problemas que requerem esforços sobre-humanos para a política nacional. Planejar ações, adaptar orçamentos, direcionar investimentos, elaborar leis, votá-las, aplicá-las, fiscalizá-las, melhorar a gestão dos recursos, educar o povo, mudar valores da sociedade, aumentar o acesso a instrução. Trabalhos épicos, dignos de Hércules. É melhor dar um jeitinho, dizer que é questão de saúde pública e que pode ajudar no combate à violência. Chamar uns cientistas para dizer que o fato de se tornar um ser humano no futuro não constitui humanidade no presente. Afinal de contas, eles nem sentem dor.

Ao reivindicar o poder sobre o próprio corpo, a mulher se impõe sobre o mais elementar dos direitos, a vida, e ignora que outro corpo agora a divide com ela. Ser mãe é mais que gerar, que criar, que alimentar, amar ou qualquer outra forma de compreensão. É ter uma ligação estabelecida no ultra-som, na meia do enxoval, no primeiro chute e em todos os outros clichês que constroem o amor. A mulher que aborta, mata mais que o próprio filho, destrói sua maternidade, suas noites mal-dormidas, o xixi na cama, o primeiro dia de aula, febres, festas de aniversário, formaturas, casamento, netos... É o amor que ela aborta.


segunda-feira, 3 de março de 2008

A Conquista do Oeste

Há 443 anos, Estácio de Sá fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. 108 anos depois, Barcelos Domingos ergueu a Igreja do Desterro, marco da criação de Campo Grande. Hoje, um século de idade é pouco para o abismo existente entre as “duas cidades”, que insistem em ocupar o mesmo município. A mais nova prova da segregação entre as porções ocidental e oriental do território carioca foi o aniversário da capital, que não rendeu festas no bairro.

Com população de cidade de médio porte, Campo Grande ocupa uma área no município que equivale proporcionalmente a dos Estados de São Paulo e Minas Gerais juntos em relação ao Brasil. Mas não é novidade pra ninguém que os investimentos direcionados à região não correspondem a nenhum tipo de proporção. Faz-se uma obrinha aqui e outra ali apenas para que todo o bairro não desabe. Nem os braços abertos do cristo são para todos.

É absolutamente comum ouvir habitantes de áreas mais “centrais” do Rio questionarem se Campo Grande faz parte da cidade. Espantoso é que, uma vez ou outra, também se ouve o contrário, moradores desavisados que se surpreendem em descobrir que são cariocas. Talvez a distância os confunda, já que a viagem de trem que fazem até a Central do Brasil perde apenas em um quilômetro para a travessia do Canal da Mancha entre as cidades de Dover e Calais, via Eurotúnel.

Os 53km que separam a Arquidiocese de São Sebastião da Paróquia de Nossa Senhora do Desterro, no Centro do bairro, são suficientes para dar 15 voltas em torno de todo o território do Vaticano. Uma procissão impensável. “Comercialmente” falando, o famigerado Calçadão dista em linha reta da Cinelândia quase o dobro do comprimento da Ilha de Manhattan. O bastante para curar qualquer compulsão consumista.

Contrariando todas as expectativas geográficas, Campo Grande vive hoje um momento áureo de crescimento econômico. O bairro conta com um dos mais fortes centros comerciais do Estado. Abriga a maior fábrica de bebidas da América Latina, construída pela multinacional Ambev. Beneficia-se com a expansão da Michelin, que praticamente duplicou a área da imensa fábrica que possui em Guaratiba e pela formação do pólo industrial do Porto de Sepetiba. A nova área industrial captou investimentos milionários para a Zona Oeste nos últimos anos, rendendo frutos como a mais nova vizinha da região, a Companhia Siderúrgica do Atlântico.

Quanto mais saudável se torna um endereço, mais as pessoas querem se aproximar dele. O desenvolvimento financeiro atrai hoje a especulação imobiliária. A multiplicação de condomínios transbordou das áreas tradicionais da “Zona Sul” do bairro e hoje se espalha por lugares improváveis, como a Avenida Brasil. De acordo com dados da Associação Dirigente de Empresas do Mercado Imobiliário, Campo Grande foi responsável por 6% de todos os empreendimentos habitacionais de 2007, em uma cidade onde Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes perdem cada vez mais espaço.

Os motivos da procura são diversos. A segurança ainda é maior do que na Zona Norte, o trânsito é menor do que no centro, os preços são mais acessíveis do que na Zona Sul e na Barra, e a infra-estrutura é superior a dos bairros vizinhos.

O excesso de empolgação alimenta os antigos desejos de independência. Contudo, ressalvas devem ser feitas. A falta de identificação com a distante política carioca criou lideranças poderosas na região, que atingem votações expressivas em eleições para os Legislativos Municipal e Estadual. Algumas delas já lançam idéias de emancipação, que poderiam inserir Campo Grande no mapa. Separar-se não é a solução. Estabelecer um novo município só serviria para incluir a população na lista de cidades-dormitório da Baixada.

Conforme o desenvolvimento da cidade segue seu fluxo histórico em direção ao Oeste, a necessidade de planejamento e organização se mostra vital. Levar a “civilização” aos pontos mais distantes da cidade é uma promessa antiga, feita pelos portugueses que estabeleceram na região uma sesmaria. Muitos problemas precisam ser vencidos até a Zona Oeste seja realmente “conquistada”.

Os tempos de Faroeste estão ficando para trás, apesar do bang-bang estar cada vez mais próximo. As pacatas plantações de laranja que antes abrigavam cowboys se transformaram em terras onde a lei carece de xerifes. Assim como nos filmes do “velho oeste”, os primeiros passos vieram com as ferrovias, porém o tempo que passou desde então foi o bastante para degradar áreas que agora precisam ser revitalizadas e incorporadas à cidade. A integração entre Campo Grande e o Rio deve ser feita antes que o município fique "pequeno demais para os dois".