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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Vivo, logo existo

Artigo III.

Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Para grande parte da população carioca, este artigo é um absurdo. Cheguei a esta óbvia conclusão ao reparar a reação das pessoas diante da possibilidade de um dos condenados pela morte do menino João Hélio ser protegido pela justiça por ter recebido ameaças de morte.

"O que indigna a população é o fato de um criminoso ser protegido pelo Estado", disse uma certa âncora de TV.

Ezequiel, hoje, com 21 anos precisa da proteção por ter sofrido ameaças de morte. Constitucionalmente, o Estado tem o dever de zelar pela vida de todos. Por mais discutíveis que sejam as penas judiciais que ele sofreu, a questão agora não é seu acerto de contas com a sociedade. Ele já foi condenado, cumpriu o que cabe a um menor de idade e certamente foi até alvo de tratamento indigno neste período, a julgar pela cena de sua prisão, quando um policial o engravatava enquanto ele era levado algemado diante das câmeras, mesmo sem a menor perspectiva de reação. E aliás:

Artigo V.
Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

Não é possível afirmar que o centro de reeducação de menores o tenha torturado, mas as condições sub-humanas recorrentemente denunciadas pela imprensa são o suficiente para quebrar o quinto artigo. E você, que está pensando em formas de fazer este rapaz pagar pelo que fez, grave bem essa parte: "ninguem será submetido à tortura ou catigo cruel".

A questão a ser tratada agora é a segurança deste ser humano, vítima das ameaças do clamor público e de outras talvez mais obscuras. Apesar de vivermos uma insanidade coletiva nestes tempos de violência, caberá sempre aos revoltados sãos a manutenção dos valores e o impedimento de concessões perigosas. O direito à vida não pode ser posto de lado para o bem da própria Democracia, pois, se o Estado um dia puder tira-la de nós de forma constitucional e legítima, é sinal que já pertence a ele de certa modo. Que se multiplique apenas a justiça e não o sofrimento.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Deveres Humanos

Há 62 anos, estabeleceu-se que o fato de existirmos, de respirarmos e de sermos pertencentes à mesma espécie seria suficiente para tornar universais as garantias de dignidade, liberdade e respeito. Independem de nossos atos, de nossa nacionalidade, de nossa etnia e de nossa condição social esses direitos. Qualquer ser humano, nascido em qualquer ponto da Terra, tem o resguardo e o dever de resguardar o próximo, conforme proclama a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nela, TODOS, e nada menos que TODOS, estão inalienavelmente incluídos.

Apesar do enorme passo para a civilidade que representa, a DUDH é, com a mais absoluta certeza, desrespeitada em seus 30 artigos cotidianamente. Sua importância é hostilizada com regularidade, e suas determinações são relativizadas com argumentos antropológicos, que ironicamente muitas vezes acobertam o desumano (sim, estou sendo etnocêntrico). Como radical defensor desta idealista sexagenária, me prestarei, a partir de hoje, a apontar como cada um de seus artigos é vergonhosamente ignorado por este mundo hipocritamente pautado pela liberdade.

Artigo I.Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.

O IDH de Serra Leoa não chega à metade do norueguês. Enquanto a Sasha escreve “sena” porque foi alfabetizada em inglês, milhares de alunos do ensino médio cometem o mesmo erro por não terem sido alfabetizados em português mesmo. Apesar de sermos todos humanos, odiamos criminosos, mendigos, arruaceiros, terroristas, americanos, russos, judeus, árabes, homossexuais, reacionários, comunistas, flamenguistas e qualquer um que ofereça “motivos”. Como somos fraternos se vivemos num mundo focado na competição e no individualismo, se somos mais valorizados por nossa capacidade de derrotar que pela de cooperar? Como somos iguais e livres se cada direito, conforto, conquista e realização só podem ser obtidos de acordo com a capacidade financeira no mundo material? Consumimos ou somos consumidos?

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Mundo Obsceno

Ele usava um boné propositalmente torto. Sentava ao fundo do ônibus com seu corpo esquio e sem camisa. Falava alto, mexendo o piercing cor de abóbora que saltava abaixo do lábio inferior. Nas mãos, o visor reluzente da câmera tornava o celular chamativo e indiciava seu preço. Caro. Foi só o que pensei.

Sorria muito, isso é verdade, mas eu não achava graça. Não das letras que a voz desafinava repetia audivelmente para metade daquele coletivo. Ele e o amigo, um pouco mais bem vestido e sem piercing, riam e comentavam os versos obscenos que o celular emitia com deselegância. É a Música Popular Brasileira dos nossos tempos, eu lamentava. Maldita inclusão digital. Cheguei a praguejar na irritação, mas me corrigi, juro.

É muita falta de educação. Reclamou com razão a senhora descabelada, que sentava no banco ao qual eu estava de frente, em pé. Foi aí que me bateu o estalo. Muita, muita mesmo. Disse para confortá-la e para refletir.

É uma falta de educação maior do que a invasão do espaço alheio. É uma falta de educação cultural e coletiva, social e excludente. Pensei ainda sem muita piedade: como podia ele ter o que chamamos de educação? Creio que o “bom comportamento” não é concebido na fecundação. Ele é adquirido dos pais, da família, do meio onde se vive, dos amigos, da escola, da religião e de outras instâncias de transmissão de valores sociais.

Olhei para aquele rapaz que deveria ser ainda mais jovem que eu. Permita-me ser preconceituoso. E se seus pais o tiveram na idade que ele tinha agora? – O que não é incomum – Como poderia ter educação se seus pais não a tiveram, como não tiveram escola, bom emprego e base familiar? Como poderia ter outro comportamento se seus amigos se portam desse jeito, com nuances a mais ou a menos? Como poderia saber algo além de seu universo, se, na escola, não teve professores que o respeitaram e não foram respeitados? Como poderia ser diferente se suas referências, seus ídolos e artistas não passam de outras vítimas da deseducação generalizada? Como poderia mudar se eu e todos os que resmungavam mentalmente sentíamos repulsa diante de sua pequinês de espírito, mas com uma menor ainda.

Ele era o que foi produzido para ser. O que permitiram que fosse. O que permitimos diariamente, não apenas por omissão, mas por não saber como quebrar esta corrente de valores torcidos e incômodos. Continuei irritado com a música, com o rapaz e com o ônibus que não tinha lugar, mas fiquei pensando em um adjetivo para este mundo de tantas coisas a reclamar.

Obsceno, conclui. Mais que a letra, bem mais.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Inovar é mesmice

Desde o desfile pop com o carro do DNA, venho acompanhando o trabalho do Paulo Barros. Como amante do carnaval da Sapucaí, confesso que recebi toda aquela ausência de plumas e esculturas com muita desconfiança. Depois vieram a bateria no carro, a alegoria de ponta cabeça, as originais aparições de E.T. e Wolly, os caixões coreografados no carro do Drácula e outras inúmeras idéias sem precedentes. Quando a Tijuca entrou na avenida neste ano, sentei com grande expectativa em frente à TV para conferir qual seria a nova peripécia do Oswald Andrade do samba, e não me decepcionei. O título mais do que merecido me fez pensar em como a inovação se tornou uma exigência cotidiana, seja ela mercadológica ou não.

Sejamos nós os publicitários das Havaianas ou os vendedores de bala em ônibus, estamos submetidos a esta exigência da vida moderna. Como diz meu colega de república, faculdade e estágio, até pedir esmola tornou-se uma atividade pouco rentável sem piruetas, jingles, trabalhos artísticos ou encenações dramáticas pouco convencionais. Nos cursinhos, professores têm que inventar “musiquinhas” para a tradicional decoreba, poemas matemáticos, aulas mais cinematográficas e até piadas de humor negro e didático. O que dizer então do mundo pop? Com uma ascensão meteórica, Lady Gaga já está tão à frente de nossa época que parece saída do fim dos tempos. Guardadas as proporções, até o Big Brother tem que reinventar detalhes a cada edição para não ter quedas ainda piores de audiência. No Twitter, a guerra é para fazer a piada original em tempo real e, na religião, uma denominação inovadora surge a cada esquina com novos rumos para o cristianismo.




E nós? Bom, nós somos massacrados pelo choque com idéias novas a cada momento. E vale lembrar que nem tudo o que inova melhora. Aceleramos de tal forma a locomotiva do novo que mal aproveitamos o potencial da sugestão de semana passada, que já parece repetitiva sete dias depois. Os referenciais mudam tão depressa, que já não há mais tempo ao menos para identificá-los. Não me darei ao trabalho de esmiuçar a Modernidade Líquida de Bauman, mas saibam que o tema já é objeto de estudo de acadêmicos desde o século passado, que já parece distante o suficiente para ser chamado assim sem estranhamento.


Há um limite para a criatividade? É o que sempre questiono diante de tantas criações. Haverá um ponto em que não teremos mais nada de novo a inventar? Não sei. Um dia, quem sabe, alguém será chamado de gênio quando disser o quanto é inovador não inovar. Então, nos voltaremos ao démodé e perceberemos quanta coisa boa e útil ficou para trás. Bom, esta é a minha idéia. Se quiser inovar, procure a sua.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Brasis


Potência emergente ou democracia atrasada? No início do século XXI o Brasil enfrenta uma verdadeira crise de identidade. Não que uma coisa exclua a outra, mas a Ordem e o Progresso não parecem mais andar de mãos dadas na república verde-amarela.

A crise mundial se agrava a cada dia, e, não só o governo, mas analistas reconhecidos internacionalmente consideram a economia brasileira uma das mais sólidas e bem preparadas para enfrentar as turbulências. Basta olhar outros emergentes e desenvolvidos. Japão, Rússia, Chile, Alemanha, EUA e tantos países de diferentes patamares de grandeza vêm anunciando dados catastróficos. O Brasil não sai ileso, o que seria impossível para uma economia globalmente integrada, mas é apontado como o mais seguro entre os grandes, de acordo com a OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico), conhecida como “Clube dos Ricos”.

Ao mesmo tempo, o país abriga um presente com cara de passado, em que os mesmos escândalos de sempre nem são mais capazes de sacudir a opinião pública. Acusada de semifeudal pela revista britânica The Economist, a política nacional ainda comporta figuras como José Sarney em cargos elevados do Legislativo. O atual presidente do Senado tem um passado de relação próxima com militares, foi integrante do ARENA e teve um governo econômicamente fracassado logo após a redemocratização. Como que para enriquecer a figura de linguagem, estoura o caso do castelo milionário em São José Nepomuceno. O Deputado Edmar Moreira {DEM [Ex-PFL ( Ex-ARENA]} alega que não há nada de irregular com o palácio Monalisa, mas peca na justificativa, já que sua vida de empresário tem algumas manchas. 2.700 processos trabalhistas cobram direitos não pagos…

Os dois Brasis conflitantes não são os únicos existentes no território nacional. Há o pais do poder paralelo, o das ONGs irregulares, o do SPFW, o dos latifundiários e dos sem-terra, o da Paraisópolis e do Leblon de Manoel Carlos, o do BBB, o da bola, o das igrejas fundamentalistas, das crianças violentadas e tantos outros. De fato, o Brasil é o país da diversidade e da tolerância. Há diversos estilos de vida, da linha da pobreza a classe A, e uma população inabalavelmente tolerante, cuja compreensão com o absurdo é impagável e imensa, ainda maior que o Castelo Monalisa.




domingo, 8 de junho de 2008

A Mulher Moderna

Mas você tem um plano? Não eu tenho um vestido. Em reportagem de capa da edição desta semana, a revista Época celebra a ascensão de um estilo de vida feminino da classe média, que não tem culpa em assumir a compulsão sexual-consumista. Intituladas mulheres modernas pós-feministas, as personagens de Sex And The City, que ganhou adaptação no cinema, se tornaram modelos de um movimento de auto-estima e gastos fúteis elevadíssimos.

Após toda a luta feminista por liberdade, é vergonhoso a mulher do século XXI permitir que sua imagem seja “inventada”, como sugere a revista, por um seriado enlatado com fins claramente comerciais e ideológicos. Quando Carrie (Sarah Jessica Parker) afirma ter prazer em gastar R$485 dólares em sapatos por não ter que comprar fraudas, diabolicamente usa de um discurso convidativo. As mulheres, assim como todos os seres humanos, querem ver seus desejos imediatos satisfeitos, e comprar fraudas dificilmente aí estaria enquadrado. Por que é tão vantajoso glorificar as vontades? Porque nada é mais irracional que o anseio de ter, que na sociedade moderna necessariamente implica em consumir.

Nada é gratuito em Sex And The City, nem na reportagem da Época. Em sua generosa missão civilizatória de transpor a cultura americana em terras verde e amarelas, a revista não poderia deixar de comparar as dondocas novaiorquinas com paulistanas bem resolvidas. São Paulo, como sempre, é espelho de Nova Iorque. A estratégia de distribuir os papéis para “mulheres de verdade” pula algumas etapas na identificação com o público feminino e vai direto ao que interessa: qual das quatro você é? Ou, se preferir, qual das quatro você tem que ser?

Carrie, que não é a estranha, é um pôster publicitário da multi-bilionária indústria da moda. Fútil? Não, apenas mulher. Isto é o que você, leitora, deve pensar. Relacionar a insana compulsão por roupas caras à natureza feminina é um insulto a sua inteligência. Samantha, “muleca-piranha”, pensa como os “homens”, reduzidos a meros animais no cio. Maquia-se porém com uma feminilidade que caracteriza-se por muito dourado e saltos altíssimos, como explica a revista, que comemora a relação amorosa da personagem com outra interpretada por Sônia Braga. Brasil-sil-sil! Independente e mãe solteira, a workaholic Miranda teme terminar como uma medíocre mulher de família, com um marido e um cachorro. Charlotte é tida como o limite do pudor na série, apesar de deitar-se com metade da cidade. Acredita no amor ainda que afirme que orgasmos não mandam bilhetes nem seguram a mão no cinema – frase selecionada pela reportagem.

Quem não se identificar com nenhum dos quatro esteriótipos não deve se decepcionar. A revista indica cuidadosamente como cada uma se veste e pensa, para que não seja difícil o “upgrade”. A reportagem dedica a longevidade da série à capacidade de formular as perguntas certas e relevantes que as mulheres devem fazer: Devo telefonar para ele ou esperar? Ter filhos ou comprar sapatos?

Solteira, com mais de 30 anos, urbana, bem sucedida, consumista, sexualmente ativa e na moda. Esta não só é como deve ser a mulher moderna, na visão do seriado e da revista. Se você tem dívidas no cartão, sobre-peso, uma casa no subúrbio, um sub-emprego ou um marido que vê o jogo todo domingo, não atende aos pré-requisitos necessários para ser uma mulher feliz no século XXI, apesar de sofrer com todos os contratempos contemporâneos. A realidade de Sex And The City é precisa, mas não é a mesma das milhões de mulheres brasileiras que freqüentam lojas de departamento e compram fraudas. Se o público-alvo da reportagem foi as quatro personagens da série e suas seguidoras egoístas e esquizofrênicas, a revista está mais in do que nunca.
*imagem retirada de wildaboutmovies.com

sábado, 7 de junho de 2008

A Subversão é Grená


Eis me aqui leitor para falar de futebol. Aviso que não se trata de uma de minhas especialidades, se é que tenho alguma, nem de meus maiores interesses. Portanto, não espere análises táticas das escalações, críticas à arbitragem ou prospectos do jogo. O que direi parte de um leigo, que apesar de desconhecer as minúcias do esporte, não pôde deixar de observar certa anormalidade.

A última quinta-feira amanheceu com tons de verde e grená. Esporadicamente algum laranja mais agressivo era visto entre as calçadas e carros, representando uma multidão que talvez só agora reconheça a própria existência. Por mais que neguem o espanto, os amargurados rivais, que não tiveram uma noite tão boa, notam algo de estranho nas ruas fluminenses. A massa tricolor, nomenclatura que não caberia em outras épocas, domina a paisagem em um renascimento que é, diga-se de passagem, admirável.

Aos que não compartilham da mesma euforia, fica um sentimento estranho, algo que poderia ser inveja, com sua larga lista de sinônimos e eufemismos. Nas mentes, as informações não foram devidamente processadas, os antigos padrões de probabilidade e aceitabilidade de um fato travam o meio de campo. Fica a sensação de que houve uma subversão, uma quebra na ordem natural das coisas. A chegada à final da Libertadores não mexe somente com a torcida do Fluminense, contradiz tabus de impossibilidade que obrigam os demais a tentar entender tal nova conjectura.

Um certo receio ainda possui a mente dos tricolores, desacostumados a grandes façanhas, porém é sufocado por uma fé reinventada, recuperada dos tempos de sucesso do clube. A vitória sobre o Boca Juniors não foi simplesmente um jogo, foi uma realidade nova que se impôs. O gigante argentino foi derrubado com muito custo, mas derrubado. Toda a coerção que fazia os próprios jogadores recearem, mostrou que é apenas coerção.

Eu, resignado torcedor botafoguense, não pude evitar uma inexplicável alegria ao ver a ruptura paradigmática. O Fluminense, visto por mim como um time fatidicamente perdedor como o meu, está agora na final do campeonato continental de clubes. O que mais assusta, é que os tricolores de fato acreditam na vitória, e têm toda a razão. Os quase 80 mil revolucionários que encheram o Maracanã tinham ânsia, e não lhes bastaria nada, senão a queda da Bastilha. Em minha concepção pessimista do esporte, duvidaria da vitória sobre o hermano opressor, mesmo depois de presenciar o resultado, e, vendo o Botafogo na final, acharia óbvio que o único motivo de tão longas braçadas e pernadas seria morrer na praia com requinte de crueldade.

Viagens à parte, não posso deixar de fazer uma observação, que justifica o primeiro texto de futebol do blog: não é bom subverter a ordem? Os puritanos que não compreendam mal o sentido em que uso tão maldito verbo. O Fluminense deixa a lição de que nem tudo o que é, precisa ser eternamente. De que é possível superar, mudar e evoluir. De que os invencíveis inimigos talvez não sejam tão poderosos quanto assustadores. E de que a ordem natural das coisas, caso incômoda, deve e pode ser subvertida. Se, apesar da histórica vitória, os tricolores não vencerem a LDU, que não se perca esse aprendizado. Que não retornemos a estaca zero a zero, em que o empate parece confortável para todos.

Contentem-se com tal crônica, pois aqueles que já "penduraram as chuteiras" e caminham pelos Campos Elísios com certeza deleitam-se agora com um belíssimo texto, escrito orgulhosamente por um dos maiores tricolores, Nelson Rodrigues.
* Imagem retirada de www.marcelomoutinho.com.br

domingo, 25 de maio de 2008

O Prosaico e o Prolixo

O povo é uma merda. A sociedade instiga reflexões céticas. Bandido bom é bandido morto. Foucalt elabora teses coerentes sobre o sistema penal. Não corte a melancia. A protuberância lombar desta mulher é libidinosa. Político é tudo ladrão. A incoerência ideológica da política brasileira nos tira a fé na democracia. Álcool? Todo dia é dia. Biodísel? Desde que não interrompa o combate à fome. Já que é pra votar, que seja no que asfaltou a minha rua. Analfabetos são massas bovinas.

Circulada por reiterações cíclicas, a sociedade brasileira escava cada vez mais fundo o abismo entre o ignorante e o intelectual. Se um vê o mundo e parte das opiniões gerais para ter a sua, o outro elabora a suas sínteses críticas balizando-as em análises acadêmicas. Qual é a diferença? Um é prosaico, avalia pura e simplesmente o que vê, toma posição com base nos seus sentimentos imediatos e impõe sua visão sem saber qual é. O outro é prolixo, vê pura e simplesmente o que avalia, sofre com a incapacidade dos demais em acompanhá-lo, mas é incapaz de adaptar seu discurso de forma acessível.

Quando vê um assassinato, o prosaico logo se enfurece. Não aceita. Não quer motivos, só castigo. Não quer vagabundo na rua. Acha um absurdo a lei. Pra que? Não dá vontade de matar um bandido? Que mate, é bandido. É passional. É dominado por desejos primitivos e descontrole das emoções em um ambiente hostil. Identifica-se erroneamente com a extrema direita. Quando vê a corrupção, nem se incomoda. Quando lê textos bizarros no jornal, acha graça. Ao ver que a mídia pensa como ele, se orgulha. O prosaico se acha direto, e vê no prolixo um alienado incapaz de ver o mundo em que vive.

O prolixo apura causas e efeitos. Desata teorias e arquiteta modelos estruturalistas. Constrói uma realidade para sua análise, e não o contrário. Critica a objetividade, mas subjetiva tanto que plana sobre bolhas de sabão que estouram com o badalar dos relógios derretidos de Dali. Não lhe ocorre limpar a sujeira, só dizer o quanto está sujo. Lamenta a pobreza, a ignorância e a desigualdade. Até chora. Tem compaixões reais, mas contenta a consciência com a crítica. Idolatra mitos, mas mistifica um mundo onde os homens são simples de tão complexos. Criminoso? Família sem estrutura. Corrupto? Coersão social. Prosaico? Inculto.

O primeiro credita mérito apenas à experiência. Valoriza a força da prática, em detrimento da “irrelevância da teoria”. Casa dois mais dois sendo quatro para tudo, e arredonda se for preciso. Tem fé em Deus, e pé na tábua. Seja Deus o bolso que ele enche de dinheiro, e a tábua, o caminho esburacado que usa para chegar em casa. O prosaico sempre é pobre. Leia-se pobreza a falta de poder aquisitivo para comprar cultura, a falta de sensibilidade para se compadecer do próximo, ou a falta de inteligência para compreender o que lhe soa complexo. Executivos, professores universitários, líderes religiosos e policiais podem estar na mesma classe sem muitos problemas.

O segundo tenta fugir do óbvio. Pensa em algo que não foi dito utilizando tudo aquilo que já lera. Incorre em incoerências, e depois, sem poder eliminá-las, as louva como a beleza da vida. Cultua as diferenças e a tolerância, mas não admite que opiniões destoantes do costumeiro e limitado círculo dos grandes autores sejam veiculadas, ainda que defenda a liberdade de expressão. Legitima o direto de autoridade, mesmo estando ele na democracia de idéias. Defende a educação universalizada, mas não compartilha seus conhecimentos com um universo maior de ouvintes e leitores. Cultiva sua aparência original com acessórios e roupas exóticas, que lhe conferem moral acadêmica e ridicularização popular. Sua casa amontoa livros e filmes, aos quais, assistir uma única vez já é o bastante. Mais vale um Nietczche na mão do que dois voando pelas bibliotecas escolares. Este grupo é menos variado, vai de Nerds arrogantes e autistas a intelectuais esquizofrênicos, o que pode incluir ainda bem-intencionados e homens de fé.

O antigo equilíbrio de forças entre os prosaicos e os prolixos sede espaço a um cenário em que estes perdem terreno precioso. O Brasil aprende cada vez mais a ignorar intelectuais e teóricos, marginalizados em suas teses. Os atuais formadores de opinião muitas vezes dizem aquilo que se quer ouvir, o que parece óbvio e irracional. É claro que utilizam um instrumental eficiente que lhes confere persuasão irresistível. Muito disso é culpa dos próprios prolixos que não foram capazes de construir pontes entre sua estrutura cognitiva e a realidade que, algumas vezes, é de fato objetiva. O crédito maior vai, como sempre, para o pensamento mercadológico, ao qual a opinião chata e contrária à vontade do público é desinteressante.

Algo no prolixo precisa ser resgatado. Reciclado. Algo, ou quase tudo, no prosaico deve ser extirpado. O homem capaz de construir um mundo equilibrado deve ter a capacidade de ir além do que se vê, mas tem que ser apto a fazer com que os demais vejam o que ele enxerga. Tem que refletir as decisões, mas deve tomá-las. Não deve se restringir ao mundo das idéias, nem ao das emoções imediatas. Não há nada de novo neste discurso. Platão profetizava que o homem ao escalar a caverna e atingir a luz, deveria voltar à escuridão e retirar os demais das sombras ilusórias. Mais difícil que ascender à luz seria imergir novamente nas trevas. Quanto a isto não há dúvida: a salvação não está ao alcance do prosaico, somente do prolixo.

sábado, 3 de maio de 2008

A dívida que permanece

Ao sacar seu cartão de crédito, João é surpreendido. “As parcelas a partir de 12 vezes são só para negros”, adverte o vendedor. Sem entender, coça seus cabelos crespos, e argumenta: “Mas eu sou negro, filho e neto de negros.” O caixa pega então o cartão e lê a identificação: “João Pereira de Souza: 45% negro, 25% pardo, 20% árabe e 10% branco. Se não é 50% negro não pode comprar em 12 vezes, apenas em 6. Parece que um de seus avós pulou a cerca.”

A esdrúxula história tem como único objetivo mostrar quão equívoca é a “discriminação positiva” entre as etnias de um país. Esta semana um estimável grupo de ilustres apresentou ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, um manifesto contrário às cotas raciais nas universidades públicas. A carta assinada por Caetano Veloso, João Ubaldo Ribeiro, Demétrio Magnoli e Ferreira Gullar, entre outros “representantes” da sociedade civil, tem como argumento central a deficiência da política de inclusão. O grupo acredita que a iniciativa favorece uma minoria negra que teve acesso à formação intelectual de qualidade, o que se opõe às condições da população pressuposta pelo programa.

Tomando como base um dado claro na sociedade brasileira: a presença majoritária de negros nas camadas menos abastadas, a proposta foi elaborada para garantir que o número de desfavorecidos cresça entre os universitários. Ainda que bem intencionada, a ação oculta um preconceito, o de que ser negro é condição si ne qua non para ser pobre. Ao se contrapor à medida, a carta evidencia um traço que também é claro no Brasil: a presença de negros nas classes mais bem remuneradas da sociedade. Apesar de proporcionalmente menor, esse grupo de negros nas classes A, B e C têm se beneficiado com as cotas, tirando oportunidades de negros, brancos e pardos que deveriam ser os alvos do programa.

Ainda que a crítica proceda – e quem sou eu para julgar o contrário, visto o gabarito dos signatários – não é de bom tom esquecer que grande parte dos negros ainda não conseguiu superar as seqüelas da senzala, e mesmos os que obtiveram definitivamente a alforria, tiveram e têm que enfrentar preconceitos. Exemplos como Joaquim Barbosa, Ministro do Supremo, só pelo fato de serem exemplos, refletem a posição de desvantagem em que a população negra se encontra. Infelizmente, ainda possuem caráter de exceção. O racismo existente no Brasil talvez seja mais difícil de combater por ser camuflado, porém, não é esse o ponto central da discussão das cotas. Como política de inclusão, ela não se concentra em persuadir, mas em incluir. As cotas, portanto, não são uma forma de pagar a dívida que o país tem com os afro-descendentes, nem de derrubar os resquícios.

São uma forma de garantir que um extrato da sociedade, que não é necessariamente negro, tenha chances de exercer profissões bem remuneradas e prestigiadas, além de obter formação intelectual mais rica. A política de cotas é valida sim, mas se for direcionada a alunos de colégios públicos de má qualidade e pessoas de baixa renda de modo geral. Não como medida definitiva, e sim como reparo para os danos causados pela deficiência do Estado em fornecer educação digna.

Muitos criticam as cotas por supor que a proposta em tese provisória se tornará definitiva. É um risco que não deve ser marginalizado, cabe a sociedade cobrar. Ao mesmo tempo que a entrada na universidade é facilitada, os maiores investimentos devem ser deslocados para a educação de base. Países como Coréia do Sul, Espanha e Irlanda que tiveram essa iniciativa, hoje gozam de vigoroso crescimento econômico. Desse modo, aos poucos, serão suprimidas as vagas resguardadas. O que não pode ocorrer é estabelecer metas para os próximos quinze ou vinte anos, esquecendo os alunos que freqüentam as escolas públicas hoje. Questões emergenciais requerem medidas urgentes e planejamento para a posteridade. Essa é a dívida que deve ser quitada com as cotas.

Vestibulares à parte, o acesso universalizado ao nível superior é uma meta vital para um país que almeja o Primeiro Mundo. Seja pelo Prouni, pelos concursos tradicionais ou pelas instituições privadas, a pífia taxa de formados deve crescer. Não estatisticamente, pois números podem sonegar baixa qualidade. Aqui, bem se sabe que índices são para “inglês ver”. O brasileiro, se deseja de fato estabelecer uma democracia em seu país, precisará de desenvolvimento intelectual para atingir o esclarecimento. Só então poderá mudar o que há de irracional em sua cultura e política, e por um ponto final em débitos sociais sem revanchismos. As evidências são claras.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

'A estação está cheia'

Muitos tentam explicar como é a sociedade. Apelam para explicações instintivas, genéticas, psicológicas e religiosas. Uns pensam que o homem é bom e é corrompido. Outros juram que deve ser controlado com firmeza. Há ainda quem diga que as influências externas o constroem, ou que cada um já nasce com uma índole, vinda “de berço”, do DNA, ou de outras vidas. Se nada disso é certo como é possível diagnosticar problemas sociais com tanta facilidade como fazemos hoje?

Quem não ouviu que a solução para o Brasil é a educação? Será? Conheço tantos homens desonestos e cultos. Ou que o único jeito é re-implantar a ditadura? Duvido, já tivemos o bastante disso para saber que não funciona. Pior, e quando dizem que a saída para a violência é matar os bandidos, para que sirvam de exemplo. Certamente, ignoram o fato de que a drástica diminuição da expectativa de vida que teríamos, caso entrássemos no submundo, já é do conhecimento de todos. Como vivemos uma democracia, cada um que pense o que quiser.

Pois bem, para mim a sociedade é como um trem, daqueles totalmente abarrotados que saem bem cedo de suas estações em direção à Central, carregados com muita mão-de-obra para mais um dia de palmatória. Parece estranho? Eu sei, mas não desista ainda. Esse trem partiria já lotado, e os passageiros se sentiriam de formas diferentes quanto isso. Então pensemos neles.

Um pequeno grupo estaria satisfeito. Seus representantes encontravam-se sentados em bancos com encosto, espaço para apoiar o braço e vista privilegiada para a janela. Estavam orgulhosos, já que chegaram mais cedo e conseguiram garantir os melhores lugares. “Esforçaram-se” para aquilo. Sentiam-se tão merecedores de seus assentos, que não o cederiam nem por um segundo para ninguém. É claro que alguns pediram para que seu lugar fosse guardado por amigos, mas isso não muda nada em suas cabeças. O máximo de incômodo que tinham, era o calor insuportável, mas atribuíam a culpa aos montes de infelizes amassados nos corredores, ou à empresa que não instalou ar condicionado nos vagões.

Porém, não eram os únicos a estar sentados. Um outro grupo estava bem ao lado, em cadeiras não tão confortáveis, mas boas o bastante para proporcionar uma viagem tranqüila. O mais importante para eles, era levantar. Não para ceder o lugar, mais para ocupar o lugar dos primeiros, já que estavam mais próximos das melhores cadeiras do que qualquer um. Tinham tanta vaidade quanto os anteriores, e a única coisa que desejavam era que eles saíssem. Almejavam tanto aquela posição, que não permitiriam que ninguém, se não eles, a ocupasse.

Havia ainda mais um tipo de cadeira. Não tinha encosto, vista para janela, e ficava praticamente sufocada dentro da multidão. Os ocupantes não podiam esticar as pernas, nem cruzá-las. No máximo, eram capazes de abaixar a cabeça e dormir. O que pensavam era bem simples: “pelo menos estou sentado”. Mas, estavam tão próximos dos “desalentados” que não podiam deixar de ter compaixão e pedir para que deixassem carregar as bolsas. Faziam isso com muito mais freqüência que os demais.

A esmagadora maioria se esmagava nos corredores. Eram tantos, que não tinham consciência da quantidade que os acompanhava. O calor ali era mais intenso. O balançar do trem era mais intenso. A pressa de desembarcar era mais intensa. A posição desconfortável obrigava que se encostassem. Os encontros mais pareciam batalhas, com cotoveladas, joelhadas e pisões. Tudo por um mínimo espaço para se pendurar ou colocar os pés. Qualquer freiada, abrupta ou não, formava verdadeiras ondas de inércia, que massacravam todos, um a um. Apesar de olharem com certa inveja para quem dormia sentado, odiavam uns aos outros, pois acreditavam que eram os responsáveis pela situação. Eram desunidos. Não lembravam, porém, que a concessionária deveria garantir lugar para todos, já que todos os dias tomavam o mesmo trem.

Muitas idéias com certeza surgiriam para solucionar o problema. Um rodízio de lugares, provavelmente, seria a primeira delas. Contudo, aqueles que estavam sentados, principalmente os dos melhores lugares, criariam argumentos “plausíveis” para demonstrar que dividir não é a melhor medida. Se algum sistema de revezamento começasse, seriam capazes até de sabotá-lo. Convenceriam os outros de que aquilo era justo, e que poderiam sentar se chegassem mais cedo. Mentira, não havia lugar para todos. Entre os que estavam de pé, os mais radicais planejariam destruir o trem, para que todos embarcassem em outro, começassem do zero. Mais uma vez, quem tivesse o mínimo de conforto jamais concordaria, visto que o risco de ficar de pé, caso mudassem o trem, era bem maior. E mesmo quem não tinha lugar, quando conseguisse sentar, não aceitaria mudança, pois já estava acomodado.

Alguns seriam tomados pela revolta e até agrediriam os demais. Contaminados pelo mesmo sentimento, os passageiros iriam puni-lo de formas desumanas, coisas que não fariam se não estivessem imersos na selvageria. Alguns mais “visionários” aprenderiam a ganhar dinheiro em meio à crise. Venderiam lugares, alugariam por um tempo, e formas cada vez mais sofisticadas de se aproveitar do sofrimento alheio apareceriam. Para disfarçar o problema, a empresa até poderia oferecer lugares em bancos de plástico, já que mais conforto era urgente. Mas talvez o faria para ter maior aprovação.

Como resolver todo o impasse? A forma só poderia ser encontrada quando cada um dos grupos decidisse que todos deveriam ter lugares. Iguais ou não, que pelo menos permitissem que um trabalhador chegasse descansado e com dignidade em seu destino. Bom, você está se perguntado o que esse texto quer dizer? Se está, talvez esteja interessado demais em “conseguir sentar”, ou acordar cedo para defender seu lugar. Se entendeu e não concorda, já deve estar sentado. Mas se está de acordo, que tal convencer uns amigos a construir um novo trem? A estação está cheia.