segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Deveres Humanos

Há 62 anos, estabeleceu-se que o fato de existirmos, de respirarmos e de sermos pertencentes à mesma espécie seria suficiente para tornar universais as garantias de dignidade, liberdade e respeito. Independem de nossos atos, de nossa nacionalidade, de nossa etnia e de nossa condição social esses direitos. Qualquer ser humano, nascido em qualquer ponto da Terra, tem o resguardo e o dever de resguardar o próximo, conforme proclama a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nela, TODOS, e nada menos que TODOS, estão inalienavelmente incluídos.

Apesar do enorme passo para a civilidade que representa, a DUDH é, com a mais absoluta certeza, desrespeitada em seus 30 artigos cotidianamente. Sua importância é hostilizada com regularidade, e suas determinações são relativizadas com argumentos antropológicos, que ironicamente muitas vezes acobertam o desumano (sim, estou sendo etnocêntrico). Como radical defensor desta idealista sexagenária, me prestarei, a partir de hoje, a apontar como cada um de seus artigos é vergonhosamente ignorado por este mundo hipocritamente pautado pela liberdade.

Artigo I.Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.

O IDH de Serra Leoa não chega à metade do norueguês. Enquanto a Sasha escreve “sena” porque foi alfabetizada em inglês, milhares de alunos do ensino médio cometem o mesmo erro por não terem sido alfabetizados em português mesmo. Apesar de sermos todos humanos, odiamos criminosos, mendigos, arruaceiros, terroristas, americanos, russos, judeus, árabes, homossexuais, reacionários, comunistas, flamenguistas e qualquer um que ofereça “motivos”. Como somos fraternos se vivemos num mundo focado na competição e no individualismo, se somos mais valorizados por nossa capacidade de derrotar que pela de cooperar? Como somos iguais e livres se cada direito, conforto, conquista e realização só podem ser obtidos de acordo com a capacidade financeira no mundo material? Consumimos ou somos consumidos?

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Atena X Einstein

Vagando erroneamente pela internet neste domingo de manhã, me deparei com um site provocativo. “Teste de QI do Einstein”, anunciava. Pois bem, como eu já ouvira falar e mais uma vez li, o exame é impossível para 98% da população mundial. (!!) Isso mesmo, 98%. Enquanto tentava descobrir de que nacionalidade era o homem que morava em cada uma das cinco casas, quais eram suas bebidas e animais de estimação, me bateu uma dúvida: O J.J. Abrams passaria neste teste?

Para quem não sabe, J.J. é roteirista de Lost, simplesmente o roteiro mais trabalhado que já assisti. Logo, pode-se concluir: ele é um gênio. Mas, Einstein, que também é inegavelmente um gênio, restringiu seu grupo de olimpianos a apenas 2% da população mundial. E esta ínfima parcela de 140 milhões de pessoas – uma Rússia inteira de crânios – seria definida por quem acerta a casa, a nacionalidade, o animal, a bebida e o cigarro dos cinco homens citados no teste (se é que o teste que eu achei é o real).

Citando uma pessoa menos questionável: e se Dostoiévski não acertar? E se Van Gogh, Camões, Graham Bell, Gandhi e Platão errassem uma das casas? E se Mozart não adivinhasse que animal pertencia ao norueguês e Darwin se enganasse quanto à marca do cigarro?

Já há teorias que diferenciam as genialidades de Machado de Assis e Isaac Newton. Isso não é novidade. Mas, afinal, o que é ser inteligente?

Bom, um amigo meu só tirava notas boas na escola. Tinha boas idéias para os trabalhos e facilidade de aprendizado. Seus amigos, ao descrevê-lo, sempre recorriam ao adjetivo inteligente, e nada mais que isso. Este meu amigo passou no vestibular em uma bela colocação e manteve o desempenho da escola no ensino superior, quando passou a ser descrito por suas notas. Um dia, questionou: o que há de genial em gastar a vida no cultivo de números? O que há de genial em saber nomes, gravar datas, articular palavras e tratar de assuntos que em nada tocam nem modificam a realidade em que se vive? Que números e nomes são estes que definem quem eu sou? Felizmente, este meu amigo descobriu que seu conceito de inteligência era uma futilidade tão desnecessária quanto a dos que medem os centímetros de seus bíceps em frente ao espelho e tão burra quanto a de quem tem em seu contracheque o seu maior orgulho.

Inteligência, para este meu amigo e para mim, não é raciocínio lógico. Não se mede pelo volume de conhecimento acumulado, nem pela criatividade de ver além do óbvio. Penso que a inteligência é uma sensibilidade, uma percepção, uma capacidade de interpretar o mundo de forma crítica, de se descolar da vaidade e dos desejos. Inteligência para mim é sabedoria, e não QI, cultura ou portfólio.

Tenho uma visão bem grega do que é a sabedoria. Atena, deusa desta qualidade, muitas vezes é descrita como a divindade da justiça, e isso não é um equívoco. Para os gregos, as duas virtudes são sinônimas. Ainda que se possa questionar a justiça helênica, o conceito se adéqua às minhas necessidades. Mais inteligente, para mim, é o que busca ser justo e sábio, é o que tem a sensibilidade de não se levar pelos sentimentos menores e o que usa o cérebro com fins coletivamente úteis, sem se apegar a vaidades e ilusões de superioridade. Se inteligente for o que se presta a futilidades intelectuais, burras serão a ciência e o conhecimento, pois serão reduzidos ao mesmo patamar que grifes e acessórios, terão o mesmo valor que músculos e servirão menos que conversíveis vermelhos. Sinceramente, espero que estes gênios sejam muito mais que 2%.

PS: Como você deve supor, faço parte dos 98%.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Mundo Obsceno

Ele usava um boné propositalmente torto. Sentava ao fundo do ônibus com seu corpo esquio e sem camisa. Falava alto, mexendo o piercing cor de abóbora que saltava abaixo do lábio inferior. Nas mãos, o visor reluzente da câmera tornava o celular chamativo e indiciava seu preço. Caro. Foi só o que pensei.

Sorria muito, isso é verdade, mas eu não achava graça. Não das letras que a voz desafinava repetia audivelmente para metade daquele coletivo. Ele e o amigo, um pouco mais bem vestido e sem piercing, riam e comentavam os versos obscenos que o celular emitia com deselegância. É a Música Popular Brasileira dos nossos tempos, eu lamentava. Maldita inclusão digital. Cheguei a praguejar na irritação, mas me corrigi, juro.

É muita falta de educação. Reclamou com razão a senhora descabelada, que sentava no banco ao qual eu estava de frente, em pé. Foi aí que me bateu o estalo. Muita, muita mesmo. Disse para confortá-la e para refletir.

É uma falta de educação maior do que a invasão do espaço alheio. É uma falta de educação cultural e coletiva, social e excludente. Pensei ainda sem muita piedade: como podia ele ter o que chamamos de educação? Creio que o “bom comportamento” não é concebido na fecundação. Ele é adquirido dos pais, da família, do meio onde se vive, dos amigos, da escola, da religião e de outras instâncias de transmissão de valores sociais.

Olhei para aquele rapaz que deveria ser ainda mais jovem que eu. Permita-me ser preconceituoso. E se seus pais o tiveram na idade que ele tinha agora? – O que não é incomum – Como poderia ter educação se seus pais não a tiveram, como não tiveram escola, bom emprego e base familiar? Como poderia ter outro comportamento se seus amigos se portam desse jeito, com nuances a mais ou a menos? Como poderia saber algo além de seu universo, se, na escola, não teve professores que o respeitaram e não foram respeitados? Como poderia ser diferente se suas referências, seus ídolos e artistas não passam de outras vítimas da deseducação generalizada? Como poderia mudar se eu e todos os que resmungavam mentalmente sentíamos repulsa diante de sua pequinês de espírito, mas com uma menor ainda.

Ele era o que foi produzido para ser. O que permitiram que fosse. O que permitimos diariamente, não apenas por omissão, mas por não saber como quebrar esta corrente de valores torcidos e incômodos. Continuei irritado com a música, com o rapaz e com o ônibus que não tinha lugar, mas fiquei pensando em um adjetivo para este mundo de tantas coisas a reclamar.

Obsceno, conclui. Mais que a letra, bem mais.